Não escolhi nascer em tempos brutos

Por Eunice Martins

Sobre o livro

Se existe um desafio nos nossos tempos obcecados pela juventude, é lançar novas compreensões sobre o que significa envelhecer. Em Não escolhi nascer em tempos brutos, Eunice Martins enfrenta esse desafio com coragem e delicadeza.

Os contos desta coletânea atravessam o cotidiano de homens e mulheres que chegaram aos 60, 70, 80 anos com mais perguntas do que certezas. Mas não há aqui concessões à caricatura da velhice como sinônimo de passividade ou decadência.

Ao contrário: os personagens encaram o mundo em transformação, as contradições geracionais, os abismos tecnológicos e afetivos, com perplexidade, humor, dignidade — e, muitas vezes, espanto.

Sem recorrer a grandes dispositivos de enredo ou viradas espetaculares, a autora se volta para os pequenos embates de cada dia: uma ida tumultuada ao banco, a sensação de inadequação frente a novas normas sociais, a descoberta tardia de que o amor pode assumir formas inesperadas.

O extraordinário se revela na persistência em seguir vivendo, mesmo quando tudo — o corpo, os filhos, os valores — parece desmoronar. Com precisão e sensibilidade, os contos lembram o estilo de Alice Munro, iluminando zonas ambíguas da experiência com um olhar agudo e profundamente humano.

Uma leitura que desarma estereótipos sobre o envelhecer e revela que, mesmo nos tempos mais brutos, ainda é possível desejar, aprender, amar — e, sobretudo, mudar.

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