Na curva do rio

Por Regina Rozin

Sobre o livro

Em Na curva do rio, Vanessa, uma mulher comum lidando com dilemas íntimos, aproxima-se de Laura, Maria, Luana, Iara, Teresa e Ana, mulheres que sofreram graves acidentes em barcos na Amazônia e tiveram suas vidas por um fio.

Este encontro desemboca em profundas reflexões sobre o feminino em diferentes contextos sociais, a partir de vozes pungentes, entre revoltadas e conformadas, frágeis e fortes, apavoradas e destemidas, tristes e felizes, porém gratas e esperançosas.

O livro divide-se em duas partes. Na primeira, Vanessa se depara com emoções reprimidas e com um corpo que envelhece, mudanças que a assustam. Na tentativa de reconectar-se consigo mesma, ela atravessa sua floresta escura. Nesta jornada, encontra com mulheres como Laura e Maria que sobreviveram a graves acidentes e compartilham ensinamentos sobre vulnerabilidade, superação e autoconhecimento.

Na segunda parte, Teresa, Luana, Iara e Ana contam, sob diferentes perspectivas, como era a vida antes e após os acidentes: os tratamentos a que foram submetidas, histórias de rejeição, perdão e amor. As personagens mostram que nem mesmo um corpo dilacerado é o fim.

Numa mescla de ensaio autobiográfico, a história desafia o leitor a confrontar temas difíceis e explorar a profundidade das emoções humanas, a partir de uma escrita introspectiva e envolvente, que alterna-se entre passado e presente.

Apesar de também viver seus dilemas, a protagonista Vanessa é um recurso usado pela autora para suavizar uma história difícil e dolorosa. “Obviamente que minha narrativa não esgota o assunto.

Ao contrário, vejo o acender de uma luz sobre um tema que merece nosso respeito e precisa ser conhecido para além das fronteiras da Amazônia”. – Regina Rozin, autora.

“Sua linguagem é clara, chegando a ser poética. A autora faz escolha cuidadosa das palavras, de maneira que consegue transmitir emoção sem cair no exagero.

Há, na verdade, uma economia de linguagem que confere ao texto sobriedade notável, mesmo ao tratar de temas profundamente complexos, do ponto de vista social e emocional.

Regina Rozin nunca se rende às dramatizações desnecessárias, optando por um tom contido que valoriza a autenticidade das experiências descritas.

Essa sobriedade também contribui para dar força ao texto, permitindo que o leitor sinta o peso das emoções sem que elas precisem ser explicitamente intensificadas”. – Rodrigo Gurgel, professor de literatura e escrita, crítico literário e autor de cinco livros (prefácio).

Livro baseado em dramas reais

Nos últimos cinquenta anos, mais de 450 pessoas foram escalpeladas em rios do Pará, norte do Brasil. As mulheres (crianças e jovens) são as principais vítimas por causa dos longos cabelos.

Basta uma mecha enroscar-se no eixo do motor, que gira em forte rotação fazendo o barco avançar, para que a tragédia aconteça. O barco, ao que parece o grande vilão da história, na realidade, é o único meio de transporte para centenas de famílias ribeirinhas.

É que os rios, nestes locais isolados, são caminhos e estradas para o trabalho, a escola, o hospital, o lazer.

Até 1960, quase todas as embarcações eram movidas a remo. A motorização, apesar do avanço, trouxe um problema difícil de solucionar. Como a maioria dos barcos é construída artesanalmente, a embarcação torna-se frágil e baixa para rios profundos, de maré alta.

Isso faz com que, durante o trajeto, a água do rio penetre por entre as imperfeições do barco.

Para evitar um naufrágio, o passageiro, ou o próprio condutor, tem de se abaixar a um nível muito próximo do motor para retirar a água, momento crítico em que as chances dos acidentes aumentam, especialmente se quem executa a atividade tem cabelos compridos e soltos.

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