Sobre o livro
Introdução No haicai, estilo de poesia de origem japonesa, a economia de palavras é marcante.
A forma do poeta observar seu objeto de inspiração, aproxima-se da que o fotógrafo captura a fotografia: o poeta registra a natureza, no presente, sem acrescentar suas opiniões e teorias, assumindo o papel de observador.
As cenas são registradas como são vistas, e a sensibilidade do escritor aparece no recorte que faz da imagem, nas palavras que utiliza e nos detalhes que escolhe ou valoriza. Para escrever um haicai temos à disposição apenas 17 sílabas poéticas, sem título e rima.
Embora seja uma poesia de poucas palavras, há três elementos frequentes: forma, palavra estação e corte.
Forma (teikei) Nesse elemento o poema, sem rima e título, é composto de três versos. O primeiro e o terceiro possuem cinco sílabas poéticas, o segundo sete sílabas poéticas. Ex.:
Te/lha/do/ mo/lha/do na/ co/mu/nhei/ra u/ma/ pom/ba no/ ba/nho/ de/ sol
Palavra de estação (kigo) Este termo representa a palavra que indica em qual estação do ano o haicai foi escrito, faz com que apuremos a observação da natureza e suas mudanças a cada estação.
O leitor e o escritor se comunicam nas entrelinhas por meio desta palavra chave que traz consigo todo um cenário. O kigo “borboleta” não representa apenas o inseto, mas, também, a primavera: época do ano em que é vista com maior frequência.
A palavra “carnaval”, além de trazer as imagens da festa, situa a paisagem no verão como forma de diminuir a sensação do frio o banho de sol é mais corriqueiro no inverno, sendo, além do fato observado, a palavra estação do poema. Ex.:
telhado molhado – na comunheira uma pomba no banho de sol
Corte (kire) A última característica refere-se a divisão do poema em duas partes, cada qual com sentido completo, as imagens não se explicam, complementam-se. Poderá ser representada por um travessão, pontuação ou estar subentendida. Ex.:
telhado molhado – na comunheira uma pomba no banho de sol
O travessão separa duas imagens: na primeira pensamos no telhado molhado e na segunda a pomba esquentando-se na comunheira. A criatividade ou as lembranças do leitor ao reunir as imagens com o cenário do kigo forma uma espécie de cena que remete as cores e as sensações sugeridas pelo autor, mas imaginadas pelo leitor.
Ao longo da história alguns poetas escreveram suprimindo algumas características, nasceu assim um estilo de escrita mais livre, comparando-se ao formato clássico, mas que se assemelham na maneira de traduzir a beleza do momento.
O que difere um terceto de um haicai livre é que este utiliza uma ou mais características do haicai tradicional, independente em qual categoria se encaixe, sempre está presente o minimalismo pelo fato de utilizar somente as palavras necessárias para comunicar o momento visto.
O haicai ensina a observar o mínimo e perceber o valor dos detalhes que nos acontecem a todo instante, ver as pequenas paisagens contidas na paisagem maior. Poesia do simples: sobre a formiga, a chuva, a flor; poesia do cotidiano, jardim, canteiro.
Poesia do olhar cuidadoso sobre os detalhes, e, por estes mesmos detalhes, se torna perceptível o como somos agraciados nos mínimos do dia.
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