Maria Bonita Lampião: O Rei do Cangaço: Amor e Poder

Por Guilherme Miranda de Aguiar

Sobre o livro

O sertão nunca foi apenas cenário. É personagem, testemunha, juiz. E em Amor e Poder — o quarto volume da saga épica O Rei do Cangaço — ele assiste a algo que nenhuma bala e nenhuma volante havia conseguido fazer: ver Virgulino Ferreira da Silva, o lendário Lampião, descobrir o que custa amar quando se tem poder. E o que custa ter poder quando se ama.

O que o poder faz com quem ama. O que o amor faz com quem tem poder. Essa é a pergunta que atravessa cada página deste volume — e a resposta não é simples, não é suave, e não vai embora depois que o livro fecha.

É outubro de 1929. A crise que nasceu em Nova York chega ao sertão como chegam todas as catástrofes que vêm de longe: sem aviso, sem culpado visível, com todo o peso. O preço do algodão despenca 32% em semanas.

Trabalhadores perdem contrato, famílias perdem chão, homens desesperados batem na porta do bando com o chapéu na mão e a dignidade ainda intacta mas já frágil. Lampião diz não. Não por crueldade — por código. O bando que cresce além do que o código sustenta deixa de ser o bando. E o código é tudo.

Mas o código não protege de tudo.

Expedita tem quatro anos quando o livro começa. Filha de Maria Bonita com o casamento anterior, criada em lugar seguro no interior baiano, separada do bando porque o bando não é lugar para criança. Virgulino nunca a escolheu amar. Mas o amor não pergunta se é conveniente.

E quando algo que você ama existe fora do alcance do que você pode proteger, você descobre o custo mais específico do poder: que poder não é proteção de tudo. É proteção do que pode ser protegido. O resto é vulnerabilidade.

Neste volume, Maria Bonita diz o nome. Não como cena de novela — como verificação honesta de adulto que chegou à conclusão depois de tempo suficiente para ter certeza. E Virgulino, que verifica o rifle toda manhã com a seriedade de quem sabe que a atenção é a diferença entre viver e não viver, recebe o nome com a mesma seriedade. A palavra é dita. E o que é dito não se desdiz.

Corisco entra. Cristino Gomes da Silva Cleto — o homem que o sertão já chamava pelo nome do raio horizontal que rasga o céu de ponta a ponta. Um tipo de ferocidade que o bando ainda não havia visto nessa escala.

Virgulino o avalia com o mesmo rigor com que avalia tudo: não pelo que promete, pelo que faz quando não há ninguém olhando. O que encontra é potência que precisa de canal. O trabalho de construir o canal — esse é o arco de Corisco neste livro.

E o arco é real, com custo real, com erro real, com o momento em que o erro custa a vida de Geraldo Limeira e Corisco vai a Virgulino sem ser chamado e diz: a ordem havia sido minha.

Porque no bando de Lampião, o código não é regra. É o que os homens são.

A terceira operação de Façanha chega diferente das anteriores. Não mais homens — modelo diferente. Não perseguir o bando: perseguir o que o bando precisa. O rio, não o peixe. Justino Figueiredo, o armazém de Sertânia, os pontos de apoio que haviam sustentado o movimento por anos.

O que Façanha obtém é real. O que o bando preserva é o que havia sido construído de forma que sobrevivesse a pressão dessa escala. O custo é pago. O bando continua.

Delmiro Paz. O nome que havia estado aberto desde o Livro 3. Dois anos e meio de observação de Sebastião Pé-de-Ferro — o homem mais sólido do bando, o que havia aprendido que oitenta por cento de certeza não é o código, e que o código exige o que exige porque é o que distingue o bando de qualquer bando que age sobre suspeita. O vinte por cento chega em agosto de 1931. E o código faz o que o código existe para fazer.

“Não foi Virgulino que fez. Foi Virgulino sendo o que o código é.”

Enquanto isso, o mundo ao redor do bando muda de formas que ainda estão sendo entendidas. Getúlio Vargas reorganiza o Estado.

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