MADELEINE: e a doença que martirizou a sua família

Por Marlene A. Torrigo

Sobre o livro

O drama Madeleine, inspirado em fatos reais, narra a comovente odisseia de uma família vivendo na primeira metade do século passado, que foi assolada por uma das mais cruéis patologias que têm assombrado a humanidade no transcorrer de milênios.

Até que surgissem tratamentos e medicamentos eficazes para combatê-la, a devastadora doença foi uma dolorosa e trágica desventura para milhares de pessoas.

Em flashbacks, a octogenária Madeleine percorre tempos memoriais de uma infância feliz até que sua família seja dilacerada e desmembrada pela terrível e temível doença.

Ao mesmo tempo em que vaga por recordações ora venturosas, ora tormentórias, Madeleine entrecorta sua biografia volvendo ao presente, narrando frases da sua condição vulnerável de anciã maltratada e ignorada pelos seus entes queridos.

“O Sítio Sabiá, ah, o Sítio Sabiá! Onde eu, Michael e os nossos primos andávamos a cavalo, nadávamos na pequena lagoa, colhíamos frutas, brincávamos de felicidade. Eu siderava quando papai ordenava: “Todos para a roça!”. Nos aprontávamos às pressas e voávamos para a estação de trem.

Que saudade do Will e do Bill. Will era branco-neve; Bill, negro-noite. Meu pai era doido por eles. Desdobrava-se para mantê-los fortes e saudáveis.

Aos domingos, enquanto tia Núbia e mamãe caprichavam nos quitutes para o almoço, papai e tio Douglas, sempre alegres e solícitos, iam à pesca no rio próximo. Lembrando-os ao comando dos seus anzóis, em momentos plenos de paz, não se podia imaginar que a fatalidade nos rondava.

Desfrutando os prazeres que o sítio nos proporcionava, não era preciso que fôssemos até o fim do mundo em busca de grandeza, riqueza, realeza, nem cobiçávamos futuro melhor. Tudo o que precisávamos estava à nossa volta.

Ainda me lembro das brincadeiras da mamãe e de tia Núbia quando os homens se reuniam para falar de política.Tio Douglas era presidencialista; papai, monarquista. Quando meu tio se punha a falar da Proclamação da República, tia Núbia exultava: “Lá vem o marechal Deodoro!

Como estou como a primeira-dama do Brasil? Mamãe não deixava por menos, quando o monarquista começava a louvar os tempos do imperador, ela pimponeava: “E lá vem Vossa Majestade, dom Pedro II! Como estou como Sua Alteza Real, a imperatriz do Brasil?”.

No saudoso Sítio Sabiá, quando chegava o inverno, já se pensava em fogueira e nós à sua volta. Amiúde, sitiantes, chacareiros ou os familiares da tia Núbia nos visitavam para longas conversas e cantorias ao som de viola.

Ao redor de uma grande fogueira ou em frente à lareira da ampla sala do casarão, nos dias gélidos e chuvosos, crianças grandes e pequenas brincavam de felicidade.

Chimarrão, vinho quente, conhaque, para aquecer a alma, como dizia meu pai, faziam a alegria dos homens enquanto as mulheres atinham-se em falar sobre as suas crias serelepes, dos seus bordados e quitutes.”

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