Sobre o livro
O romance brasileiro desse último século sofreu de impactos terríveis depois dos últimos cânones da Semana de Arte de 1922.
Com o desaparecimento de Guimarães Rosa e Drummond – que nunca escreveu romances, mas somente crônicas pagas para jornais diários do Rio de Janeiro -, sobrou vivo Mário Palmério e esse, não obstante a sua grande capacidade de criação novelística, deixou d e produzir porque creu que Chapadão do Bugre e Vila dos Confins já lhe dariam autoridade de imortal.
A Mário Palmério não interessava mais produzir nada.
Quem o conheceu sabia perfeitamente desse fato, e de uma forma que julgamos meio egoísta por parte de quem o fazia, exigiam dele que continuasse a produzir, mesmo como artefato de prova de que podia e poderia de novo reconstruir tramas como aquela de Chapadão do Bugre, um dos livros mais bonitos já produzidos no Brasil em todos os tempos.
Mário Palmério dava de ombros. Estava distante desses aparatos de fuxico e inglórias, seu mundo era bem outro. Quem o conheceu que o diga. Um homem que vencera em todos empreendimentos aos quais se propusera. Por isso, aqueles modos de quem não precisa de provar mais nada.
O caráter desse livro, Loba, revela uma mistura de ações rurais e urbanas. Porém, a ação urbana é preponderante porque age na trama como um todo, age nos aspectos socais e econômicos de uma determinada região e seus moradores.
Segundo Henriques, esse é o tipo de tema que pode estar sempre recorrente em seus livros porque congemina de forma exata com a sua maneira de ter sido criado. Ele cresceu nesses meios. Não em história semelhante, é evidente.
Mas em todo esse aranzel que forma o teatro das famílias advindas do Sul de Minas e de alguns logradouros de São Paulo e vieram se instalar no Alto Paranaíba, Triângulo Mineiro e na belíssima província do estado de Goiás.
Não se trata, então, de biografia, ainda mais que a história conspira a favor de um modo novelesco de mostrar as dicções e consequências de um mundo que não para e está sempre parado.
Isso quer dizer, não para e está sempre parado, que as tradições desses pedaços de mundo existem em função da trilogia, família, tradição e religiosidade, de tal sorte que de algum maneira as coisas evoluem e por outro lado estão ancoradas no sistema antigo que mantém o status quo, independente do ano em que se vive e como se vive naquele ano.
Loba, então, é um livro que dá a impressão de ser um daqueles livros proscritos porque delata a doce podridão e idolatria de um mundo que vai acabar sendo extinto. Não tem como ser diferente.
Enquanto isso não acontece, as velhas e tradicionais famílias perdem seus bens porque é feita uma reforma agraria sem força imposta, sem nenhum planejamento estratégico, apenas baseada nas heranças e na divisão de posses – seja terra que se divide, sejam imóveis urbanos -, de tal sorte que tudo acaba se diluindo e aqueles cânones que davam nomes a ruas, os que antigamente eram ricos latifundiários, deixam seu nome aos herdeiros e alguma posse.
O nome permanece intocado. Aas posses se vão porque os herdeiros, maioria das vezes, não estão habituados ao labor, desfazem daquilo que lhes ficou como propriedade e vão jogar sinuca nos bares apócrifos das esquinas.
Estas figuras são emblemáticas e saltam aos olhos nos personagens de Loba. As descrições são perfeitas e existe na trama esse sarcasmo ao contar a história. Uma descrição tão perfeita que se tem a sensação de que esse teatro se põe imutável à medida que se entende o que está previsto. Há uma previsibilidade constante nesse tipo de história que navega com o tempo.
Loba conta a história da aristocracia numa determinada região que bem poderia ser o estado de Minas Gerais ou qualquer ponto do mundo que possa arcar com as descrições exímias desse romancista incansável. Esse livro mostra a decadência de algumas famílias tradicionais e a luta pra a manutenção do status quo anterior. Há uma tremenda tensão nervosa dentro do texto, a dizer bem a verdade, quase que não
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