Sobre o livro
Dois irmãos em conflito, uma família decadente de fazendeiros no interior da floresta; neste movimento de vozes, Rafael Azevedo constrói uma saga familiar com maestria, em um romance lírico e impressionista.
Nas costas soa a serpente, a espada de Carvalho corta a carne quase-morta, e não há outra saída a não ser lagrimar, e minha seiva é a lágrima que desce de meu corpo, uma resolução complexa, a lágrima é o corpo do meu eu, e o eu de lágrima elabora este mundo para a perdição, um filho da noite, elaboro-me em outro tempo, no que sou, no que fui, no não-fui e no não-sou, eu já nem sei se sou outra coisa ou homem, árvore e caminho, linguagem ou vazio.
“Angelim é um jovem forasteiro que passa a morar em uma propriedade agrícola chamada Pastoral. Para que permaneça e seja integrado à família, a condição imposta é a de cavar poços à procura de uma água quase inexistente.
Nesta Pastoral, parida de uma natureza envenenada pela moralidade familiar em ruínas e por contínuas violências patriarcais, o trabalho aceito é a erva parasitária que cresce nos corpos, aprisionando-os como se fossem homens-árvores.
Mas Angelim – nome que remete ao mesmo tempo à árvore e às entidades angelicais – é um ser de desejo livre, atravessado pela vida não experimentada. Sua psique em constante acontecimento busca saídas nas fissuras do sonho, de onde escapam seres fantasmagóricos ou telúricos.
Nessa atmosfera devaneante o tangível se funde ao imaginário para produzir melodiosamente o tecido do qual é feito o véu delicado da humanidade.
Lágrima sobre a Pastoral, assim, é um romance do limiar que vem a partir de uma insônia que provoca a sobreposição de camadas de linguagem e discursos que distorcem a narrativa. É preciso escavá-la, independentemente da profundidade que tenha.
Uma narrativa-poço, abismal tenebroso e fascinante, do qual pode tanto jorrar o doce da água boa do conhecimento, quanto o amargo do escuro que está dentro do ser. O poço é o espelho escuro, o círculo estreito, a prova do neófito, a espiral iniciática que nos prepara para a passagem.
Passagem que todos temos de enfrentar um dia.
Pastoral é o lugar do real e do irreal, portal de comunicação com as vozes assombradas da terra, das águas, dos vegetais, dos homens e dos etéreos que vêm para nos falar de uma região como metáfora da vida e da história.
Cavar, sulcar a terra, escavar-se, buscar profundidade. O que há para descobrir em um poço além da água? Em Lágrima sobre a Pastoral, a vida se afunda na procura e já “não é preciso dormir para ver a fábula”.
Sheila Maués Autiello
Università degli Studi di Milano
Baixe esta página em PDF para ler quando quiser, mesmo offline.
📄 Salvar PDFAvaliações dos leitores
Descubra as opiniões de outros leitores, explore avaliações detalhadas e veja se este livro realmente vale a pena para você, com base em experiências reais de quem já leu e compartilhou sua visão sobre a obra.
⭐ Reviews dos leitores




