Jia

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

uando supomos que uma palavra desse tamanho, Uía, Jia, uma coisa que vem lá dos tempos nhengatus, não seria capaz de gerar poesia, estamos todos muito enganados.

Partindo da premissa que dentro de todo olho d’água – no olho do olho d’água – sempre tem uma jia, não seria impossível se imaginar que J Humberto Henriques fosse lançar mão desse artefato – ou artifício – da natureza com a finalidade de fazer Poesia.

Pois isso, em caso do poeta, traduz ancestralidade e vigor. Desde as vertentes e sarobas das beiras do Brejo Bonito e Cruzeiro da Fortaleza até limites mais longos para as bandas do rio Espírito Santo, o poeta sabe que em todo olho d’água que se preza mora uma jia inchada.

Isso é de conhecimento de menino e de ancião. Naquelas paragens, a preciosidade do olho d’água com sua jia instalada é coisa de magia muito grande.

Diz o autor, zanzando por ali, ele e o Duca, tio de geração antiga e muito respeitos, ambos na busca da perdiz cujas penas deviam mesmo estar untadas com mel de capim gordura, de repente davam as caras numa beirada de terreno molhado.

Para a sede ser saciada, o calor das horas mais altas, bastava se por de joelhos e beber do fluxo que vinha das bandas do capim. Água pura imaculada. Água da mais pura e angelical textura, leve.

Dizia o Duca com todas as letras possíveis, ali era o olho d’água mais antigo do mundo e nele morava a jia. Todo olho d’água tem sua jia. É condição inerente às bandas desse universo. Isso não dá erro.

O autor era rapazote nesse tempo e o tio falava. Confere lá, vê se a jia está guardando o olho d’água. O menino olhava. Conferia. A jia estava lá sim, aninhada naquela posição de deusa que sabe que a água e seu olho não podem jamais serem violados.

A jia é a guardiã desses elementos de grandeza que vão diminuindo à medida que avança a cultura da cana e da soja. As pás mecânicas dessas grandes máquinas, numa questão de segundo consegue revolver qualquer nascente, que dirá olho d’água.

Tudo se destrói e vai junto da destruição a rã, o cascalho e as algas possíveis que purificam a água.

Entretanto, naqueles dias de outrora, a jia tinha sido avistada, sentada e a vigiar o manancial miúdo. O tio falava. Se por acaso vem cá um abestalhado e mata a rã, se a tira do lugar onde deveria estar, o castigo é bruto. Um castigo muito bruto. Não demora e estará seco o olho d’água.

Para ele, o Duca, castigo maior do que ver seco m lugar assim não existe. Disso o tio tinha plena certeza. E na orla desse mundo – ou talvez na centralidade dele -, a imagem da Jia vem acompanhando o poeta, de tal sorte que com matéria assim tão diminuta ele faz um livro de poesias.

O sapo ficou fixado na sua memória como um guardião do mundo e suas águas. A bem da verdade, ninguém gostaria que fosse diferente disso.

Aqui nesse compêndio, Jia, estão ineridas poesias sonoras, maravilhosas, todas retiradas e promovidas ou pelo olho d’água ou pelo olho do batráquio. Seja qual olho se projete mais, são poesias arrojadas, telúricas, sintéticas, poesias que buscam a realização lírica que a memória é capaz de albergar.

E, num caso assim não poderia mesmo ser diferente. O poeta está a ser analisado pelo tempo e pelas reverberações de um estampido de espingarda calibre 20, quando alvorecia em voo nos ares a constatação da perdiz que o cão fez voar.

Os poemas visuais que aparecem nesse livro foram inseridos depois de muito tempo do livro pronto. Foram inseridos aí em razão da pertinência e compatibilidade da criação estética. Cada visual é titulado com o nome de Pedra em função da origem estabelecida pela fotografia que deu origem ao desenho.

Esse artefato e a utilização dos visuais enriquece muito o texto que se tem nas mãos. Trata-se de uma conjunção bem estabelecida e que, doravante, não pode mais ser relegada. Com isso, Jia atinge sua plenitude de livro bem elaborado.

Autores assim, daqueles que não podem se perdidos na leitura de um interessado em Poesia. Nada se compara.

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