Sobre o livro
A cerração desponta nos confins das Américas, uma nuvem narcótica e rasteira e leitosa, de memórias de dor e guerra e sofrimento chega. Ela prende o tempo em um limiar sem escapatória entre mundos. A realidade é viva, tudo que foi, é e será fica resumido e sem substância nessas vagas etéreas.
É possível ouvir no breu alvo, canções perdidas de homens e mulheres que contam suas terríveis jornadas no Sul. A neblina ocultou a verdade que mais desejamos saber, o que no derradeiro sucedeu sobre os eventos mais hediondos da história dos pampas.
Presa no branco sem forma está toda a verdade, e, mesmo que não se queria, se estivermos caminhando por essas terras diante do fatídico, ela aparecerá insidiosa para nos capturar. Se permanecermos tempo suficiente nela conheceremos a verdade de tudo, mas será que conseguiremos voltar?
O atado de paus, a forquilha, um triângulo que aponta para baixo, nos permite viver como andarilhos de um mundo desconhecido, mas não é sinônimo de segurança, porque mesmo que consigamos retornar, saberemos ao final de tudo, que a geometria da forquilha é o mais cristalino espelho: o que há em cima, há embaixo.
E aí, bom… Já teremos mergulhado no abismo da inanidade. Acredite, o inferno existe e ele é branco.”
Entre por conta e risco nela… neste INFERNO BRANCO.
Convido todes a darem as mãos e segurarem-se contra o mesmo vento que empurra as areias hostis, trazendo à tona a fome humana, que atiça o instinto de sobrevivência, convido a resistirem juntos ao desconhecido que vem insidioso através das dunas e serpeia o charco, como a cobra velha e ardilosa que é Santanas.
Convido a colocarem os pés e adernarem lenta e ininterruptamente com a Nau Vitoria, convido a marearem no Atlântico, até cheguem ao inóspito e selvagem ultramar austral, o caminho do contrabando através das águas continentais.
Convido a conhecerem a guerra nos terrenos lodosos e cheios de animais peçonhentos, que não são os horrores do sul. Os horrores acontecem porque os homens chegam lá: El Diablo Blanco.
Convido a desembarcarem em terra violenta e de natureza que existe alheia ao homem, terra roubada dos autóctones para abrigar Dragões famintos e desterrados, que cavam seu covil nas areias escaldantes e encontram ali o limite abrasador da insanidade.
Convido a todes para descer da embarcação e ficarem quietos na margem escutando o marulhar, até ela chegar. Se permitam temê-la porque deverão, ela traz o inferno e ele é branco. Ouçam os gemidos que vêm com ela, vejam enquanto são vistos.
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