Há – e Cintila

Por Rogerlando Cavalcante

Sobre o livro

Dizem que os olhos dos mortos registram a última visão que tiveram – uma fotografia que talvez denuncie seu algoz: a face do assassino nos olhos da vítima – ou a de quem assiste de alguém o último suspiro. Ou: a viva imagem de Gregor Samsa no cristalino do inseto em que ele se metamorfoseou.

Ou: os ambíguos retratos de Capitu nos ciumentos olhos do casmurro Bentinho.

Ou Borges aos olhos vivos de Borges, esse que responde a ele e ele que responde a esse, se assistindo morrer – a morte física não corresponde a constituição da persona, pois, enquanto compomos essa vai se dando àquela: a gente nasce aqui ou ali e vai morrendo por onde viva ou passe.

Com nitidez cristalina, eis a imagem: a esperança, nascida do coração de crianças órfãs, se fixa no firmamento e cintila nos olhos dos que restam vivos (…)

O poema numa sequência cinematográfica: brilha nos olhos de um homem, uma criança que aponta para além das ruínas: um céu estrelado.

De todo modo é uma imagem surgida do impacto de quem contemplando um cenário devastado, “ruínas”, (destroços de prédios e corpos) não deixa de acreditar em sua espécie e, ao invés de se abater pelo desolamento, se revigora pela esperança (…)

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