Guatemala, a democracia e o império (Pátria Grande)

Por Juan José Arévalo

Sobre o livro

Revolução e contrarrevolução na Guatemala A década de cinquenta representa o auge da luta de massas em favor do socialismo na América Latina.

Ao contrário do senso comum, as conquistas e lições ocorridas naquele período foram muito mais importantes do que na década seguinte, aquela mesma cantada em verso e prosa cuja máxima expressão teria sido o ano de 1968 tão festejado de maneira alienada no Brasil.

De fato, a Revolução Boliviana abriu um novo horizonte no início da década (1952) e a Revolução Cubana fechou o decênio com a entrada vitoriosa de Fidel, Raul e Che em Havana, no luminoso janeiro de 1959.

Entretanto, em 1954, num pequeno país centro-americano, concluía de maneira trágica a Revolução Guatemalteca quando a classe dominante local com estratégico apoio do imperialismo estadunidense, mobilizou os militares para destituir o governo de Jacob Arbenz, sucessor do professor de filosofia e também presidente, Juan José Arévalo.

Após a queda de Arbenz, a Guatemala sofreu uma longa noite de terrorismo de Estado instaurada no país dos hombres de maiz, que somente seria interrompida com um acordo de cessar-fogo, em dezembro de 1996, entre o governo e a URNG.

As lições emanadas da Revolução Guatemalteca são valiosíssimas, embora as derrotas costumem jogá-las para o esquecimento como se a luta e consciência das massas somente fosse objeto de nossa atenção e apreço em caso de vitória.

Aos desavisados, é preciso lembrar que um argentino chamado Ernesto Guevara de la Serna se encontrava nesse momento precisamente na terra do quetzal.

Juan José Arévalo é um personagem central no processo revolucionário iniciado quando os estudantes guatemaltecos convocaram o então professor de filosofia da Universidade de Tucumán, na Argentina, para que voltasse a sua terra natal e se postulasse como candidato a presidência da República.

Após a vitória eleitoral, o presidente Arévalo iniciou em março de 1945 um profundo processo de transformação com ampla participação das massas – especialmente os trabalhadores do campo e os indígenas – destinado a mudar radicalmente o país em que 2% dos latifundiários controlavam 72% da terra cultivável num território em que 70% da população era analfabeta e, portanto, estava impedida de votar.

A despeito das imprecisões conceituais de sua proposta – o “socialismo espiritual” – o fato é que nada impediu a mobilização das maiorias em favor de um amplo programa de reformas que somente se radicalizou no governo de Arbenz; ao mesmo tempo, como a vida demonstraria, também as forças da contrarrevolução avançavam na mesma medida em que crescia o grau de consciência e organização das massas.

Portanto, no terreno histórico de um país subdesenvolvido e dependente, uma vez mais a dialética revolução/contrarrevolução se estabelecia de maneira plena.

O pensamento crítico latino-americano – no qual se inscreve o de Arévalo – não nasce em seminários universitários, mas, ao contrário, da luta pela segunda emancipação de nossos povos no rumo do socialismo e da revolução social.

Nildo Domingos Ouriques

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