Gado Bravo: Recordações de um tempo vivo

Por João Rodrigues Pinto

Sobre o livro

Um mergulho nas memórias do autor Esta obra está dividida em três partes que dialogam entre si. A primeira, intitulada “Narrativas da boca do vento”, convida o leitor a caminhar pelas ruas da minha infância, onde conheci o significado da ternura, que até hoje permanece latente nas obras.

Da meninice bem vivida, à descoberta do teatro brincante e a poesia; o brilho do teatro sol amarelo; a lagoa dos nossos encantos, as vivências, desafios e aprendizados, seja como autor, ou partícipe das histórias.

Aqui veremos as narrativas sobre as pessoas que deixaram um significado de esperança, amor e sonhos, alguns impos-síveis, outros angelicais, ternos e perfeitos.

Apresento os antigos moradores, pessoas simples que desfilavam pela rua da lagoa, na boca do vento e que mesmo sem os holofotes do glamour, deixaram marcas na paisagem daquele lugar tão especial.

Concordo com a Ecléa Bosi, quando ela insiste que os termos narrativa e oralidade se desenvolveram no tempo, falam no tempo e do tempo, recuperando na própria voz o fluxo circular que a memória abre do presente para o passado e desse para o presente.

A segunda parte, denominada “As algemas de Lucas”, apresenta um mosaico narrativo em que a intuição “é uma leitura interna da duração. Ela o faz produzindo imagens” (BOSI, Ecléa, 2003).

Proust Bergson, em Tensões do tempo: tempo e história, afirma que “[…] a intuição estética levanta o véu espesso que a rotina interpõe entre nós e as coisas” (1992, p. 149).

Desse modo, devemos contar histórias que despem e revestem a palavra, apresentando situações extraídas das vivências pessoais e àquelas criadas na ficção, sem perder o tom do realismo.

A linha ténue entre realismo e ficção se perde e se encontra na mesma dinâmica, deixando para o leitor o convite à reflexão ou à desconstrução da palavra, nem sempre lapidada, mas repleta de possibilidades.

As narrativas destacam personagens vivendo momentos, nos quais, “bem e mal se entrelaçam intimamente, transitando num universo que, embora de papel e tinta, é como o nosso, onde as pessoas têm de optar entre diferentes valores e condutas eticamente possíveis” (LAJOLO, Marisa, 2000).

A terceira e última parte, intitulada “Entre a prosa e o verso”, ilustra a pretensa veia poética do autor. Passei muitos anos da vida escrevendo e escondendo poesias, por não me considerar um poeta. Sempre dei preferência à prosa.

Escrevi romances e peças teatrais sem seguir qualquer estética ou cor- rentes teóricas. A escrita fluía do meu jeito e eu recorria a centenas de folhas de papel. Escrevi muitos versos, às vezes pobres e cansativos, às vezes belos e feios, agressivos e dóceis…

Não são poesias e eu não sou “poeta de alma e ofício”, como o nosso eterno Drumond, que costumava dizer que “poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero rotular-se de poeta quem apenas verseje […], sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação.

Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é um ser a mercê de inspirações fáceis, dóceis às modas e compromissos”.

Posso dizer que sou um prosador que forja a poesia e busca lapidar a palavra, emprestando-lhe a delicadeza, a leveza e a fúria das contradições humanas que, aos olhos do poeta, é um caminho, nem sempre harmonioso, que busca entrelaçar o sentimento do mundo e da história, através de uma linguagem encarnada, visceral e eloquente.

Não sou poeta, mas teimo em escrever poesia. Bom proveito leitores.

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