Sobre o livro
Apresentação
Um dia nasceu um broto num galho de árvore na montanha e milagrosamente se desenvolveu. Não consigo entender, mas tinha vida dentro dele, que por si mesma cumpria sua missão.
Mas ele não estava sozinho, pois tinha tudo a ver com galho, que tinha a ver com o tronco, que tinha a ver com a raiz, que tinha a ver com a terra e seus nutrientes.
E tudo aconteceu porque o vento trouxe em suas asas, de muito longe, uma semente que ali repousou e que germinou pela ação da chuva e o calor da terra. E esse broto virou uma folha bem próxima a uma flor, que deu seu néctar para abelhas, para beija-flores e para muitos insetos.
Aos poucos, a flor transformou-se em fruto, que por sua vez alimentou os pássaros.
E com o passar do tempo, já cumprida sua missão, a folha, antes verde e cheia de vida, ficou seca e sem seiva, e desprendendo-se corajosamente do galho, que durante toda a sua existência lhe dera segurança, ao sabor do vento deixou-se levar, para voltar para o lugar do qual viera.
E assim recomeçar o ciclo da vida. E todo esse processo não aconteceu por acaso. Seguindo o ritmo da natureza, cada coisa aconteceu a seu tempo, conforme as estações do ano: primavera, verão, outono, inverno. A vida é um milagre que está disponível à nossa percepção.
Mas nós, comuns seres mortais, vemos e achamos muito natural que isso aconteça, e nem nos espantamos, nem admiramos as cenas que presenciamos. Mas o poeta, atento, percebeu esse momento de forma singular: no outono uma folha seca ser levada ao sabor do vento.
E o que era grosseiro e comum encheu-se de magia e encantamento. O olhar do poeta é assim, as imagens entram pelos seus olhos e vai direto para o coração. Sente na pele, ouve sons e percebe cheiros. E torna-se prenhe de toda aquela percepção que o inquieta, até que se manifesta em forma de poesia.
É assim que ele faz, transforma as percepções em palavras, versos, estrofes, que se tornam, então, cheias de significados. E por mais que ele não queira, deixa-se conhecer por dentro e é apanhado, como um peixe, nas finas malhas das palavras tecidas com fios de ouro.
É isso, o poema é uma malha tecida com fios de ouro. E o poeta na sua liberdade deixa-se prender por ela. A coragem de criar precisa existir, pois a criação é um ato solitário. E nesse processo o poeta revela-se no espelho das palavras. E foi assim com Roberto em Folhas secas de outono.
Deixa evidente, todo nosso ímpeto de transcendência, como resistência a “inautenticidade do ser”, proclamada por Heidegger. Folhas secas de outono é uma lição de vida eterna, que brota da angústia, do sentimento de solidão e da saudade de Deus.
Marcio Zacarias Lara
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