FILHA DO SOM: UMA VIDA GERADA NA FOLIA, CRIADA NO SILÊNCIO

Por CRISTIANE BOTELHO

Sobre o livro

Ana vive como quem pula Carnaval: entregue ao agora, sem rédeas e sem medo do amanhã.

Em uma noite de folia, sob o calor dos atabaques e o cheiro de cerveja e cigarro, ela concebe Pollyanna — uma filha sem pai, fruto de um encontro cujo nome o tempo e a rua apagaram.Enquanto Ana percorre o mundo abraçada aos seus demônios, Pollyanna nasce sob o signo do desprezo.

Criada no vácuo do afeto materno, ela se torna a criança que “não dá trabalho”, moldando o próprio corpo para não ocupar espaço. Sua infância é marcada pela exclusão: da grade de onde observa o mundo que não lhe pertence ao altar da igreja onde, em vez da hóstia, recebe apenas um farelo de pão.

É uma existência estratificada entre lápis curtos, documentos incompletos e a permanência do abandono.Na juventude, Pollyanna inicia uma peregrinação visceral em busca de respostas. No entanto, o mundo que encontra é hostil.

Do terreiro onde o Caboclo lhe nega o conselho à paróquia onde o riso de desdém do padre a rotula como “demônio”, ela é repetidamente repelida por portas que exigem ouro para oferecer pertencimento.Mas é no momento da queda absoluta, entre o diagnóstico de uma dor física e o enfrentamento de suas sombras, que a revelação acontece.

Pollyanna compreende que os demônios que a assombram são apenas os pedaços dela que nunca foram amados, gritando por um lugar ao sol. Ao empunhar a espada de São Jorge para degolar o ciclo do desamor, ela descobre que o que procurava nunca esteve fora, mas sim dentro.

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