Esteves sem metafísica

Por Luiz Andrade

Sobre o livro

O livro de Luiz Andrade, Esteves sem Metafísica, traz em seus versos a multiplicidade de vozes que ecoam no mundo humano – demasiado humano –, que vai do menino ganhando a estrada atrás do circo até o mendigo da esquina de um centro urbano qualquer.

Os personagens dos poemas desfilam à luz de lampião, no ritmo lento e impactante de sinos dobrando, enquanto revolvem nossos estômagos a cada esquina de verso e vida que deixamos para trás: “Talvez vivamos pra sempre em janeiro, à espera. À espera…”.

Algumas referências são diretas, como uma baforada de cigarro ardendo nos olhos: a Filosofia de Nietzsche, de Schopenhauer, de Pessoa – vórtice confesso de inspiração –, as famílias católicas de Minas Gerais, a mitologia grega, a música de Belchior. São muitas menções a todo tipo de cultura, de Brancaleone ao TikTok, de Villa-Lobos a Beto Guedes.

Esteves também desperta a memória de outras leituras, em outras referências que são mais sutis, como expressões de Guimarães Rosa e imagens que nos lembram Graciliano.

Talvez não tenha sido intencional despertar a sensação de beleza da poesia que pulsa na ignorância, como nos apresentou Clarice; carregar, em alguns poemas, um jeito irônico de expressar o tempo, como faz Leminski; ou, ainda, trazer uma aura urbana de cronista que remete a João do Rio.

Sabemos que isso não importa. O que a leitora em mim acessa na arte do Luiz são esses e outros diálogos, sobretudo com a literatura brasileira. É, de toda forma, um livro que atravessa o peito como um rio, nos emocionando pela estética, derramada em solidão.

Há, na poesia de Luiz, traços de um novo Barroco. Há a sinuosidade e a objetividade, há a inocência e o repugnante, há a fé e a incredulidade. É o paradoxo barroco atualizado em um homem que está em um mundo feio e belo, hostil e acolhedor.

O Esteves de Luiz também fala do que não é: ali, na tensão de estar de pé, nos meios dos símbolos de fé que sempre o rodearam, sem, no entanto, acreditar que não está vazio, vivendo os hábitos de uma fé herdada e não sentida.

Descreve-nos, dessa forma, a realidade contemporânea que assiste. O quadro que constrói é bem plástico: ora os matizes de vermelho da terra quente, ora os acinzentados do tédio urbano.

Escutamos a música triste de fundo em palavras de esperança e também a crueza resignada dos cheiros de morte da cidade. No brilho dos gatos que sabem, mas não falam, a arte paira junto às curvas da vida.

Os diálogos com várias formas de conhecimento cruzam o livro e nos insuflam à reflexão sobre o fazer poético e a vivência: “voo”.

Nina Barbieri

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