Sobre o livro
Esses são poemas mais longos, provavelmente de lavra mais inicial de José Humberto Henriques. Talvez aqui estejam seus textos mais purificados, aqueles que o moveram para a busca da poesia perfeita.
Como sempre, um pesquisador ferrenho da atividade da palavra, seus silogismos, suas fisiologias, suas heráldicas, suas raízes mais profundas, Humberto Henriques pesquisa e fez observações constantes sobre a arte das letras.
Tanta busca e faz e refaz que acabou por inventar o seu próprio estilo na construção de visuais puros e de poemas visuais cujo impacto é verdadeiramente cristalino.
Estamos diante de um artífice verdadeiro, um poeta maior, daqueles de dedicação integral e que acabam por tornar a poesia um verdadeiro desafio de Sísifo.
Para se saber desses poemas, porém, talvez seja mais lúcido o que o prefácio curto desse livro traz. Um prefácio curto que o autor fez para uma edição desse livro publicado pela amazon.com/kindle. Prefácio feito pelo próprio autor. Então, é de certo interesse que se conheça o prefácio tal como ele surgiu em tal edição. Como está no original. Transcrevemos aqui.
Poemas longos, como não me podem mais. Estão aqui tipificados e reunidos numa invenção de certo monobloco. Todos esses poemas faziam parte de A Grande Sinfonia dos Sátiros, que num momento de inércia resolvi dividir em outro volume, sorte tal que, surgiu esse novo compêndio.
Em algum momento, sincero, estive por destruir das letras tais escrituras. Por uma questão de apego bobo, resolvi mantê-los, não obstante a inocência de textos como o último poema, que designei aqui como capítulo 5 – somente por uma fatalidade didática.
As datas variam de 1981 – quando ainda me impressionava a estagnação do país imposta pela revolução de 64, até 1988 – quando o tempo já era outro e me impressionava a ilusão sumária de Francis Ponge e a prestidigitação expressionista.
Portanto, são mundos diversos, são pensamentos muito desgarrados, mas ainda afeitos ao longo texto de um poema, o que nele acaba perdendo a intenção de perfeição.
Se há algum laivo de densidade contraditória naquilo que afirmo, somente porque Valéry já me era de uma intimidade de crepúsculo, dos sonhos que ficam entre a vigília e a decoada de uma luz qualquer, ou de treva alguma.
Entretanto, voltando ao estado de nossa apresentação desse compêndio, sempre a curiosidade bate de alguma maneira às portas de algum apresentador. Por isso, a situação de falar com o autor sobre esses Escaravelhos em Gaveta Verde.
Porque, como fica a normalidade da questão, seria mais plausível que o nome fosse escaravelhos verde em gaveta. Alguma coisa nesse sentido, fator que faria o adjetivo alcançar cerro regulamento de ordem em cabeça do leitor.
Por outro lado, é de se concordar que o título original, a gaveta sendo verde, demanda muito maior rol de afetividades poéticas que o outro. a proposta de tornar o adjetivo mais factível acaba por redundar em perda de classe e sonoridade.
Ficaria tudo banalizado, há que se ver esse aspecto da situação.
Então, questionado sobre essa gaveta verde, Humberto Henriques usou de u argumento bem simples para dizer sobre o fato, mas não o explicar.
Disse ele, seu avô tinha um móvel com tampa em seu escritório onde guardava de tudo que não tinha valor, necessidade ou explicação, desde patacões do tempo dos espanhóis até besouros graúdos com chifres. Guardava raízes de plantas e sementes já sem utilidade. Chifres de veados.
Balas de garrucha e fotografias do meu bisavô, Gustavo. E mais coisas, arruelas sem função, correntes quebradas, livros com receitas de venenos antigos, relógios sem ponteiros, bússolas e tudo quanto é tipo de traquitana inútil. Mas os besouros, escaravelhos, eram verdadeira maravilha.
De todas as cores, cornudos. Unicórnios de brilho espetacular. E havia um, mais particularmente bonito, verde com reverberações rubras e azuis, um bicho deveras bonito e que seria mesmo inesquecível.
Ele era tão verde, que sozinho fazia a gaveta ser mais verde que o re
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