Sobre o livro
O nada não precisa e não tem explicação.
Gustave Flaubert, autor do clássico Madame Bovary, resultado de um trabalho de cinco anos, para nos contar a tragédia de uma mulher sublime, presa num casamento insosso e interiorano, deixou explícito nos seus textos que gostaria de fazer é um livro sobre nada, um livro sem ligações exteriores, que se mantivesse integralizado pela força interna do seu estilo.
Em síntese: um livro em que o sujeito ficasse quase invisível, se é que isso é possível.
Ele é aquele mesmo escritor que Jean Paul Sartre, imortalizou em o Idiota da Família, considerado um monumento inacabado sobre a formação de um gênio e a quem considerou como uma espécie de semideus, que vivia como um burguês e escrevia como um artesão.
Mas o nada se integra ao universo da filosofia, da poesia e de literatura pela sua abrangência e se Flaubert sonhava no romance sobre o nada, falaria sobre o quê? Talvez uma história de amor impossível ou um drama inútil de capa & espada, quem sabe nos legando uma obra de ficção científica inacabada, em que todos os personagens, como nós viventes e passageiros da vida, morrem no fim.
Num universo surgido há quase 14 bilhões de anos, com bilhões de estrelas, incontáveis planetas e galáxias, e que foi didaticamente sumarizado na calendário cósmico de Carl Sagan, em seu livro Dragões do Éden e na série televisiva Cosmos, que ganhou agora nova roupagem no século XXI, comparando tudo que existe a um calendário anual.
A questão das reflexões sobre o nada, passam pelo vazio do espaço, do tempo e transpassam sinuosas e transversais sobre o vórtice do tempo, pois prescinde das letras e das caligrafias, e pode muito bem se fixar no espaço em branco que se choca com o negro das letras e dos símbolos dos nossos últimos segundos do calendário cósmico numa mera questão de diagramação, até mesmo como o silêncio prescinde da fala, enquanto o poeta tenta apenas um poema, com palavras sobre palavras, numa construção concreta e mais nada.
O livro também resgata memórias de Fernando Pessoa lembrando que nada era, nem pretendia ser nada. O poeta português sabia da dimensão escatológica da poesia e remexia metaforicamente o ventre do caos ou desta solidão branca como as paredes das casas, dos cemitérios ou das coisas que definem a prevalência do caos em todas as latitudes, mas não evidenciam esta dimensão absoluta do vazio.
Neste questionamento, o autor dos Ensaios inúteis sobre o nada nos diz que não sabe fazer nada e está despreparado para o mundo artesanal, com o seu caos, suas contradições e fatores que exigem o preparo ou cuidados na confecção de objetos meramente materiais.
O poeta também caminha pelo jardim em que os caminhos se bifurcam no misterioso universo quântico de Jorge Luis Borges, que cego, percebia as coisas através dos olhos divinos de Deus, mas muito além do horizonte e dos jardins dourados que se perdem na floresta, quebrando o manto e o ritmo abstrato do silêncio.
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