EM TEMPOS DE SECA: A Saga da Sobrevivência

Por MARIA JOSÉ DE SALES

Sobre o livro

A seca seca a terra, a vegetação, a hidratação do corpo, o corpo e a alma. O sertão transforma-se em um deserto. Chão rachado, esturricado. Ou terra solta, areia ao vento seco e quente.

Pedregulhos expostos, cercados por xique-xique, rabo-de-raposa, alastrado, palma – santa, coroa-de-frade, mandacaru e alguma outra vegetação espinhenta e espinhosa. Esta sobrevive por se assemelhar ao camelo do Saara ao acumular água em si mesmo para suas necessidades futuras.

Alhures, algumas árvores de grande porte como o juazeiro, a oiticica, as palmeiras cujas raízes se alongam penetrando o solo, o subsolo em busca da umidade vital que, apesar do sol inclemente e abrasador, sobrevivem sob um céu sem nuvem, nem esperança.

Se a seca no sertão nordestino é um problema climático perene, a solução, não.

Embora muitas promessas já tenham sido feitas, desde Dom Pedro II, prometendo vender a última pedra da coroa para acabar com a seca (Cá pra nós: acho que ele não encontrou comprador!), até a criação de Campos de Concentração de Flagelados, no Ceará (Os Currais do Governo) para que os pobres não fossem incomodar os ricos na capital.

Sai o Imperador, entra o Presidente. Outro. Mais outros… A seca continua periódica, geográfica, histórica, política, social e fúnebre. Foi assim em 1877, 1915, 1932… Secas vividas por Julião.

Em Tempos de Seca… porém, há um oásis, o da imaginação. Ora, Julião, romeiro das Alagoas, chega a Juazeiro no Ceará para ficar, em 1903, cuja esposa morre no dia da chegada, deixando três meninas. Espera as meninas fazerem treze anos e arranja casamento para elas com rapaz trabalhador.

Julião, viúvo, se engraçou de Maria, porém ainda tinha uma filha menina. Não poderia casar, pois prometeu a si mesmo nunca dá uma madrasta a suas filhas. O jeito foi arranjar o casamento da caçula, quando ficará mocinha, com o pai de Maria, também viúvo, seu futuro sogro.

Resolvida a questão, casou, então, em 1911. Ano em que Juazeiro deixou de pertencer a Crato. Eita, pendenga! Pior foi no fim de 1913 e início de 1914. Uma guerra para acabar com a terra santa do meu Padim Ciço Romão. Mas com as graças de Deus, meu Padim venceu. Tomou até o canhão do governo.

Mas o que veio mesmo para acabar de vez foi a seca em 1915.

Sem roça plantada, pois não houve chuva, Julião com a mulher de resguardo, amamentando o recém-nascido, tem de sepultar Nazaré, a filhinha de três anos, e vender seu único bem semovente, a Mulatinha. Acompanhado do compadre Zé Migué, segue viagem em busca de trabalho na Estrada de Ferro.

Espera dias melhores. Conseguirá? Quem logrará mais sorte? Até que ponto a frustração lhe atingirá? Mas, conforme o ditado popular: “ Um homem prevenido vale por dois.” E ele diz: Apesar da limitação de peso da ponte. Tem de atravessar… a ponte, a seca, a vida.

Sabe-se que em tempos de seca tudo se come. “Só escapa dos ares, arubu, e do chão, cururu.” Contudo é preciso mais… Não basta só alimentar o corpo. A alma carente e sem esperança se vale da imaginação. Foi o que fez Julião para escapar da seca e ajudar aos mais necessitados do que ele: os órfãos da seca.

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