E Se O Para Sempre Não Existir?

Por André Calado

Sobre o livro

Muito mais do que gente

Quando o António (permite-me tratar-te assim, amigo) me convidou para uma nota introdutória

ao seu novo livro de poesia, fui inundado por um sentimento de enorme responsabilidade. Que

ingrata a tarefa de prefaciar um poeta, pensei de imediato. Que palavras usaria de forma a

expressar aquilo que o próprio, certamente, melhor expressaria?

Não esperem, por isso, a subtileza e a beleza que o poeta aportaria a igual convite. Não é,

certamente, pelo uso da palavra que este convite me foi dirigido. Arrisco, ainda assim, acreditar

saber o porquê deste convite.

Ao António conheci-o numa feliz jornada no Verão de 2006. Entre dezenas de outros jovens

vindos de todo o país, que durante oito dias percorreram Portugal de Norte a Sul de comboio,

deixámo-nos, desde logo, contagiar pela sua energia, sensibilidade e coragem. Tratava-se da

iniciativa Comboio Escolhas, evento global para todos os projectos do Programa Escolhas

(www.programaescolhas.pt) que visava premiar os(as) jovens que mais se tivessem destacado

no ano letivo em questão. O António era um deles.

No âmbito do Programa Escolhas, onde tenho a felicidade de trabalhar desde 2001, compete-

nos no domínio das políticas públicas, a geração de oportunidades para jovens que necessitam

de opções.De escolhas.

Trata-se de um programa orientado por uma enorme convicção. A de que todos(as),

devidamente apoiados e em querendo, podem chegar mais longe. Para os(as) jovens que

nascem do lado incerto das oportunidades e que, frequentemente, partem para a corrida da

vida com um excesso de carga na bagagem das adversidades,o apoio nessa caminhada é

decisivo. É feito diariamente, na proximidade, num misto de afecto e exigência.

Por isso, e para mim, falar do António é falar de muito mais do que gente. E é disso que se

trata quando falamos do António. Do jovem agora adulto, do estudante, do poeta, do amigo. Aí

tenho, de facto, muito para dizer.

Gente que nascendo nas longínquas terras vulcânicas do Faial, e que persiste em tornar fértil o

que – à partida – tudo tinha para nada gerar, só pode ser muito mais do que gente.

Gente que lutando para libertar as amarras que o impediam de ser o que sempre sonhava ser

(mesmo que não o soubesse ainda), só pode ser muito mais que gente.

Gente que sente uma força de viver muito maior do que ele próprio, e que com isso contagia os

outros pela positiva, superando todas as contrariedades, só pode ser muito mais do que gente.

Alguns chamam-lhe resiliência. E dizem que é a capacidade de nos adaptarmos e lidarmos

com a adversidade e com os desafios que a vida nos coloca. O António, naquele seu jeito

simples mas grandioso, diz-nos que se trata, afinal, de ver em cada problema um desafio que a

vida nos coloca só para nos relembrar do motivo pelo qual vivemos.

O poeta António é, isso mesmo: poesia em forma de gente. E esse é o seu maior desígnio.

Gente que traz poesia lá dentro, só pode mesmo vertê-la e dá-la de volta ao Mundo.

O António não estava lá – em 2006 – por mero acaso. Tinha feito um (enorme) percurso que

continua a mapear e a escrever de forma quase convulsiva. Tinha feito um arquipélago de

afectos, esperança e otimismo onde antes existiam ilhas (quase) desertas.

Há (felizmente) gente assim.

Lisboa, 22 de outubro de 2012

Pedro Calado

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