Dispersão da Alma, o Tempo

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Esse compêndio trata a prosa de uma maneira magistral. Da mesma maneira que o livro anterior, o que dizia tratar a crônica em sua essência, Beco dos Aflitos, esse que agora se tem, menciona o conto como seu âmago.

No primeiro, Beco dos Aflitos, o autor mescla os dois gêneros, conto e crônica, ajunta um terceiro, o romance e a novela, acaba por construir esse dilema que resulta sempre em impacto na solução dos ritmos. Isso é realizado de maneira proposital e o resultado final é surpreendente.

Essa construção remete a uma decoada de gêneros, como se tudo pudesse ser misturado de uma maneira incontestável e nada pudesse ser desarranjado por conta dessa experimentação abrangente. De alguma maneira isso nos remete a Tia Julia y el Escreviñador, de Mario Vargas Llosa.

Quando se atina para a conjuntura que o romance alberga, muitas surpresas acabam por delinear fatos seguintes, os mais interessantes possíveis.

O autor, dono desse domínio facilitador para a consecução de sua obra, aproxima todos os itens de uma possibilidade de gêneros e ajunta tudo numa magistral amostra de prosa.

Aqui, nesse romance, o título é seguido do gênero claro e personificado– o conto -, entretanto, a junção do conto e do romance tomam lugar e atingem esse balanço extraordinário do híbrido.

Esse tipo de preferência pela junção de gêneros se faz presente na obra de Henriques, essa mesma que vem sendo traduzida pelo século de agora e a década de 2020.

Quando publicou seus primeiros livros, como foi o caso de Geomorfosintaxe do Riso, esse tipo de arremesso de sua obra já demonstrava essa intenção de desdobrar o romance em várias facetas. Fazia com isso o polígono e o caleidoscópio dentro dele. Girava o texto em muitas direções.

Por isso mesmo, trouxe em um único título essa reverberação do romance, do conto, da crônica, do ensaio e da poesia. Sem que possa ser esquecido que fundamento mais absoluto do livro, pode ser separada a peça de dramaturgia pronta para ser encenada.

Esse tipo de comportamento do criador suplanta todas as expectativas. Bar do Birota, por exemplo, uma das criações do autor publicadas em papel, esse livro traz uma peça teatral já devidamente montada.

Para se ter isso em palco, basta que seja feita a adaptação necessária e os enquadramentos exigidos pela dramaturgia. Portanto, de uma forma bastante peculiar a montagem das obras desse incrível prosador e poeta acaba por ser definida como uma inovadora formatação do estilo.

Essa inovação dentro da Teoria da Literatura, porém, é um serviço que deverá caber aos acadêmicos interessados em levar avante um assunto que vai exigir suor e compenetração.

Então, esta pujança em mesclar gêneros para tirar disso uma reverberação estética mais pronunciada sempre esteve presente na obra de Humberto Henriques. É uma de suas características fundamentais, embora em romances mais extensos esta pretensão é completamente abolida.

Nesse caso, como acontece em A Invasão do Rio de Janeiro pelos Bárbaros, romance de largo fôlego, o texto se situa em toda a eclosão e fundamento do gênero, sem tergiversar.

Qualquer um desse romances muito extensos, todos eles primam pela densidade e pelo arrojo diante da capacidade de se estender o autor e confabular com o melhor que pode ser produzido nas Letras de um país qualquer.

Podemos citar três deles, Glória e Agonia de Aspicuelta de Campoamor, Misericórdia e Moça de Renda. Todos esses romances obedecem a um plano de criação exímio. Na verdade, poderíamos citar uma centena deles. E ainda estaríamos em dívida com esse processo de criação.

Considerado um dos mais imponentes escritores brasileiros de todos os tempos, Henriques suplanta as suas próprias expectativas. Continua a produzir em larga escala, embora confesse que o fôlego para os enormes romances está mais sossegado. De qualquer forma, estamos dian

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