Sobre o livro
Cuidadosamente trabalhadas durante anos, as ficções breves de Izilda Bichara esmiúçam nossos principais conflitos íntimos, familiares e sociais.
O conjunto é variado, revelando em doses equilibradas os aspectos mais característicos da vida em sociedade: tristeza e doçura, violên- cia e bondade, egoísmo e empatia, realidade e nonsense, e muito do que habita o intervalo turbulento entre esses extremos.
O título Desculpa o atraso e outros contos já antecipa o degrau que separa social e emo- cionalmente os personagens desenhados pela autora, que jamais se relacionam de igual pra igual.
Alguém sempre está um degrau acima ou abaixo, e essa diferença é o potente motor da sátira, do rancor, da tragédia ou do absurdo. No breve conto de mesmo nome, por exemplo, uma empregada massacrada pela adversidade justifica-se para a patroa, mulher insensível e injustificável.
Na escada da opressão social, a inferioridade está sempre no degrau superior. Ofensas de todas as qualidades e intensidades pautam os conflitos humanos. A ofensa que ainda une as primas Rosana e Telma, no conto Macarrão e vinho, é meio disfarçada, regrada pelos bons modos.
A que move o jovem pro- tagonista de Maquinações é uma típica ofensa financeira. Em Franguinha a ofensa é carnal, abominável. Até mesmo “o tique-taque do relógio da sala cada vez mais alto” representa uma grande ofensa mecânica, no conto Receita para matar o tempo.
Mas esse é um dos sabores da coletânea. Há outro, muito menos amargo, nas ficções pautadas pela delicadeza. Um bom exemplo é o conto Foco, sobre um rapaz que tenta se adaptar à cidade e ao jogo social dos crocodi- los, negociando o tempo todo com a solidão.
“Você precisa de foco, Dorival, estabelecer metas e se organizar em direção a elas. Não dá para um rapaz de sua idade ser tão tímido, viver sem amigos, sem namorada, com medo de tudo e de todos.” Outros exemplos desse paladar delicado são Talvez, Pião e A moça dos olhos borrados.
E há ainda o sabor agridoce do insólito, que marca os contos mais contundentes. São alegorias não realistas, que instauram − ou revelam − outro tipo de caos na vida das pessoas.
Você será abraçado por esse familiar estranhamento no conto Buraco, em que a rotina de uma mulher finalmente revela seu lado sombrio. Revelação presente também no maravilhoso Desfalque, que inicia esta reunião de narrativas: “Foi então que um dia acordou e percebeu que lhe faltava um dedo”.
Quem garante que isso não acontecerá com você ou comigo?
Nelson de Oliveira
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