Das Alergias

Por Rodolfo Magalhães

Sobre o livro

Precisava sair. Revirava-se o estômago. Esgarneciam-se as vísceras. Doía por dentro. Ascendendo. A boca minava ao menor gosto avisado na garganta. As amígdalas se repeliam. Um bolo quente e áspero estava à altura do coração. E fazia doer o peito, o pulmão. Esfaqueava o próprio coração em pontadas.

Viriam lufadas. A saliva irrigava por baixo da língua, descia pelo céu da boca, escorriam sobre as carnes que ainda cobriam o siso. A cabeça mole, vertendo suicida para dentro da privada. A água límpida permanecendo límpida. A respiração ensaiada, remontando a postura.

A ânsia maior e os joelhos pendendo sobre os ladrilhos úmidos do banheiro. Um certo nojo, mas a necessidade meteu-lhe o rosto nas bordas da privada, enquanto se contorcia em golfadas. O gosto amargo persistia na boca apesar do cuspe viscoso, forçado a sair.

Com os olhos cheios d’água, o corpo trêmulo e abatido, não havia compostura ou asco que impedisse de se abraçar à privada e voltar o rosto para o lado, desviando-se do cheiro acre que tingia a água límpida. Assim começou para Urbano. Assim começou para Matias.

Cada qual longe longe do outro, em tudo no estilo da vida. No mato ou na metrópole. Os sinais das alergias!

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