CONVENTO DE BERLIM: A VINGANÇA

Por Nelson Valente

Sobre o livro

A igreja imponente no alto da colina do castelo, que abrigava o convento de Berlim, iluminada pelos relâmpagos, proporcionando lascas e aços espelhados no horizonte sem fim. Tarde fria e chuvosa. Densas nuvens cinzentas acumulam-se no horizonte, ameaçando pancadas de chuva.

O vento suave como a brisa, entoando nas ramagens das árvores e nas frinchas das venezianas do convento a melancólica canção da tristeza e da saudade.

O chão avermelhado que o circundava encontrava-se sempre recoberto por espessa camada de capim nativo que, com suas compridas folhas, atapetava de um imaculado verde-escuro a gleba toda.

À esquerda, o monte que dominava com seus poderosos contornos e cenário rústico daquela região, enquanto mais próximo, à direita, o campanário da velha igreja, emergindo dentre os tufos da vegetação, estabelecia o flagrante contraste do amarelo desbotado de sua antiga alvenaria com a intensa tonalidade verde das árvores circundantes.

Ao sul, bem acima do convento, a campina se alastrava, quebrando-lhe a monótona uniformidade montículos de grama, criados ao longe pela mancha escura de um cerrado que se estendia a perder de vista.

Erguia-se ela em terreno inclinado cujo vértice terminava na tortuosa e solitária estrada que demandava o cemitério do Convento.

A árvore das assombrações – como a chamavam em Berlim-destacava-se no conjunto agreste pela tortuosidade de seu tronco, pela forma bizarra de sua copa cuja galhardia desordenada desbraçava-se em todas as direções e pelo permanente revestimento de folhas onde os raios solares jamais penetraram.

O tronco enorme e retorcido, apresentava-se sempre envolvido por grossa casca embolorada pela excessiva umidade e, em suas reentrâncias, insetos de toda a espécie e negras lagartixas encontravam o seguro refúgio.

De um lado do tronco, na base de um galho que ali existira e que talvez fora, em épocas distantes, decepado pela fúria dos vendavais, formara-se profunda cavidade onde se represava a água das chuvas, permitindo proliferação de rãs.

Em dias escuros e chuvosos o trovão ribombava surdamente nos horizontes e a chuva coava-se pelos labirintos da densa camada de folhas, escorrendo pelas nodosidades da árvore, esses pequenos e feios animais iniciavam sua tremenda sinfonia de berros que se ouvia à grande distância, ecoando pela cidade.

Corriam estranhas histórias a respeito dessa árvore. Amanhece…

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