Contrato Fechado

Por MARLON GUEDES MENEZES

Sobre o livro

Sabe aquela sensação de que tudo desmoronou a sua volta e ninguém dá a mínima?

Acho que essa foi a sensação que se abateu sobre Dalmo Tavares assim que ele descobriu que sua filha única—ou que restara dela—, era apenas três embrulhos atados com cordão, já meio inchados e podres, que alguém bem doentio deixara como uma oferenda lúgubre na caixa d’água da antiga companhia de abastecimento da cidade; essa também deve ter sido a sensação que acometera o Casal Chaves quando Bruno resolvera enfiar sua moto recém comprada contra a traseira corrugada de um caminhão-guincho que estava estacionado na esquina, com a filha deles na garupa; ou quando Áquila Ramos descobriu descobriu que sua mulher o traía com o patrão só porque suas pernas eram emprestáveis.

Francis também era um garoto paralítico. Era. Luc queria uma vagina entre as pernas para esfregar na cara do pai, o inflexível Pastor Kim.

De certa forma, havia muita gente em Daisy disposta a jogar achando que poderia ofercer pouco; muita gente à procura de vingança, almas que não eram mais que velhos e sujos farrapos açoitados pelo vento da luxúria e do ódio.

Acho que os seus desejos eram como negros sinos atados aos seus corpos por uma artéria rompida. E foi isso que atraiu o Mal para a cidade e fez com que sazonalmente o caos se instalasse.

De repente, todo mundo descobriu que, por uma troca ínfima—logo descobririam que não era tão ínfima assim— poderiam reivindicar tudo o que os céus ou a Fortuna não lhes podiam dar sem uma boa dose de provações e súplicas chorosas.

Fred, o sobrinho de Tia Clarita e Tio Biu, estava desacreditado para o futebol, pois como se dizia na cidade, tinha os joelhos bichados e uma má estrela.

Shaienne, a ex-bargirl viciada que Maurice enxotara do Camisa de Vênus, iniciciava uma vida pouco promissora de dançarina numa boate subterrânea de Ilhéus. Camila, a garçonete exuberante e cínica, buscava o amor do pai que a renegara desde criança.

Cris queria salvar a si mesma e a filha de um marido violento.

Margarete, a gerente do Camisa de Vênus, exigia o seu quinhão de felicidade na Terra, e Mel Maia, a bargirl que substituía Shaienne e que nas horas vagas atendia clientes pervertidos num site de pornagrafia ao vivo, queria salvar a irmã Alícia das garras de um pai tirânico, e de quebra, se tornar uma estrela.

Em troca de uma bagatela, como um picadinho de miúdos de carneiro, um homem misterioso está disposto a atendê-los. Como diz a velha canção, eles so precisam ser sincero e desejar profundo. Eu prefiro acreditar nas palavras do Pe.

Ídris, que disse que o ouro do mal é como um torrão que se esfarinha com o tempo. Talvez ele estivesse certo, embora, às vezes, eu tenda a acreditar que há muitas razões justas para se sentir ódio e muitas razões injustas para entregar a outra face ao tapa.

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