Sobre o livro
O título de Contos de solidão e silêncios implica, para já, um programa unificador de todos os textos, a mitologia do Autor. A solidão é uma onipresença; seja a verdadeira, seja a inventada – e neste último sentido é exemplar o belíssimo conto “Ruínas”.
O Autor sabe que fazer literatura é jogar com essas ambiguidades do ser humano: a viúva que narra em primeira pessoa a abertura do túmulo do esposo viveu, até então, uma quimera de solidão, uma solidão inútil, capaz de um gesto patético gesto final, para o qual o leitor é preparado desde o início, mas que, ainda assim o surpreende.
Ao lado disso, formando pendant com o sentimento da narradora, há um Corvo matafísico, que quer apossar daqueles dejetos humanos, mas nem este é capaz de persistir em sua busca, voando para outros lugares mais prometedores – tal como a narradora.
Magnífico conto, a ser incluído em qualquer antologia dos melhores de nosso País.
O silêncio do título, aqui, pode ser entendido de duas formas: tanto é o silêncio das personagens [personagem que abdicam de falar] quanto o silêncio como veladura das intenções narrativas – quanto a esse aspecto, Guilherme Cassel é mestre em ocultar-nos a essência do que deseja dizer, atingindo um estágio que evoca o melhor da contística de Hemingway e apostando na inteligência do leitor.
Eis que chegamos no cerne deste livro: ele é todo feito sobre o que não é dito, mas sugerido. As “pistas” que o Autor deixa aqui e ali são capazes de montar todo um arcabouço de intenções. Não se pense, porém, que os contos demandem um leitor privilegiado em cultura e capacidade intuitiva.
Qualquer leitor poderá entendê-los, e isso é uma verdadeira proeza literária. Mais uma vez lembramos o sentido da medida, revelador da consumada capacidade técnica do Autor: nem o texto pode ser escancarado, nem pode ser críptico.
O primeiro gera o tédio; o segundo, a perplexidade e a sensação do logro.
O silêncio das personagens decorre de algo íntimo, quieto e pessoal – como o silêncio da viúva de “Ruínas”-, mas igualmente de um sentimento coletivo e atávico: Quem vive no Sul, quando envelhece, naufraga em silêncios. Aos poucos, vamos aprendendo a desconfiar das palavras, a evitar a ilusão do entendimento. É quando a memória se apodera da vida e nos inunda com seus cheiros, texturas e fantasmas; quando, enfim, compreendemos que ficamos sós.
Eis aí, na abertura do conto “Sul” um dos tantos exemplos dos silêncios do livro, e que nos fazem entender o porquê da aliança implacável da fusão entre o silêncio e a solidão. Uma decorre da outra, numa simbiose que não dá margens a evasivas ou fuga.
As personagens de Guilherme Cassel, assim, vagam sempre numa iminência, que é simbolizada pelo evento que não acontece, aquele evento transcendental que irá tirá-las do abandono, da culpa, da solidão, restituindo-as à vida “normal” das pessoas “felizes”.
Isso acontece com o protagonista-narrador do excepcional “Feliz Aniversário”, um assaltante para quem o fruto do crime é para revigorar um afeto, o único que o prende à vida e é capaz de justificar suas ações – mas se trata de uma felicidade efêmera, que amanhã será substituída, mais uma vez, pela dureza do real.
Baixe esta página em PDF para ler quando quiser, mesmo offline.
📄 Salvar PDFAvaliações dos leitores
Descubra as opiniões de outros leitores, explore avaliações detalhadas e veja se este livro realmente vale a pena para você, com base em experiências reais de quem já leu e compartilhou sua visão sobre a obra.
⭐ Reviews dos leitores




