COM OS DENTES QUE AINDA ME RESTAM

Por GLAUBER DA ROCHA

Sobre o livro

Este é um livro sobre homens – homens simples, vis, grotescos, mas indiscutivelmente banais. Daqueles que se encontra em qualquer esquina. Daqueles cheios de medo de errar, de empobrecer, de broxar. Com todos os seus delírios de grandeza, suas máculas de desejo, seus traumas de infância.

Não há almas elevadas almejando o Paraíso, mas almas subalternas tentando escapar das chamas infernais, com o mínimo de queimaduras. O que não é banal, de toda forma, é o prisma através do qual podemos enxergar seus interiores nos contos de “Com os Dentes que Me Restam”.

Francos, assumem a precariedade do que trazem dentro de si. O mérito de Glauber da Rocha como autor, que transborda na rudeza de “Com os Dentes que Me Restam”, é dar voz aos devaneios e temores destes homens.

Em lugar de polir com deslocados recursos estilísticos as falas destes personagens, Glauber opta por ser meramente um canal para que se expressem. E assim, o que poderia ser um exercício de vaidade autoral converte-se em testemunho cru, e muitas vezes desagradável, dessas vidas.

A maior parte dos narradores aqui é muito pobre materialmente, como o ex-presidiário que aceita a encomenda de um assassinato tanto por dinheiro quanto por luxúria.

Mas outros são apenas espiritualmente pobres, como o dono de restaurante que enlouque diante da obsessão com a fiscalização de seu estabelecimento; como o investigador que não consegue deixar passar um suicídio mal esclarecido; como o homem que enriqueceu com a limpeza de fossas sanitárias, mas que não consegue abandonar seu rancor dos tempos em que as limpava com as próprias mãos.

Todos eles lutam com as armas que tem contra o que os torna miseráveis. Em alguma medida, sempre fracassam. Quando digo, portanto, que este é um livro sobre “homens”, não falo na espécie, mas no gênero: poucas vezes as inseguranças e deméritos da condição masculina foram tão claramente expostas.

E o misto de adoração e repulsa que desenvolvem pelo sexo oposto, e que permeia todas as narrativas, raramente foi tão claramente abordado, no que tem de ridículo e de violento. Assim, “Com os Dentes que Me Restam” apresenta-se como uma leitura veloz, porém dura. Por vezes beirando o intragável.

Mas necessária, porque se todas as vozes devem ter a chance de serem ouvidas, por que não também as deste homem brasileiro banal, que mesmo no silêncio da civilidade de todos os dias, remói por dentro tantas frustrações? Roberto Pedretti

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