Clamor da Selva

Por Olímpio Cruz

Sobre o livro

Olímpio Cruz, indigenista por vocação e indianista por sentimento, teve sua mansa poesia marcada pela mensagem simples e pelo arranjo formal, filiada à impassibilidade como expressão objetiva das coisas no esforço que conduz ao seu universalismo.

“Clamor da Selva” enfeixa um punhado de poesias – que são como contas de terço de quem quer só cantar, extravasar em forma impressa o que ocorre na alma repisada de sentimentos líricos – arrumadas numa surpreendente linguagem cabocla, como caboclo que foi este poeta, livre como o épico dos paus d’arco que margeiam o Rio Corda e triste como a rapsódia de martírios de Alto Alegre, ocorrida em 1901, no Maranhão, quando índios guajajara mataram frades e freiras capuchinhos.

Os versos de Olímpio Cruz evidenciam o seu condicionamento espontâneo e o seu profundo conhecimento pela natividade do que se propôs realizar como ponto central. O índio e o ambiente natural de seu intimismo correm na livre incursão de sua transcendência em recriar o que lhe vem da saudade e o que se lhe apura do apostólico exercício vivencial:

“Índios Canelas, filhos dos Timbiras. ingente inspiração das grandes liras, que decantaram nossas nostalgias!

Sois vós os índios de viver mais puro, herdeiros do presente e do futuro dos versos de ouro de Gonçalves Dias!”

Toda poesia excessivamente poética deixa de ser poesia. E Olímpio Cruz sabia desse segredo, porque os versos contidos em “Clamor da Selva”, lançado em Brasília em 1978, mais que o carisma que lhes vestem, são como “um clarão de sol que já vai longe”.

Sobre o autor Olímpio Cruz nasceu em Barra do Corda (MA), em 20 de outubro de 1909, e faleceu em Brasília, no dia 11 de junho de 1996.

Poeta, escritor e sertanista, é autor de vários livros de poesia, tendo escrito ainda o romance “Cauiré Imana, o cacique rebelde”, que inspirou um documentário de televisão sobre o que a mídia convencionou chamar de “O massacre de Alto Alegre”, ocorrido em 1901, quando índios promoveram um levante contra uma missão de frades capuchinhos.

O poeta dedicou grande parte de sua vida à causa indígena, tendo vivido 37 anos entre os índios Kanela, Krahô, Timbira, Guajajara, Krikati e Gavião, trabalhando no hoje extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão fundado pelo Marechal Cândido Rondon ainda nos anos 1940 e substituído em 1967 pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Por conta de seu trabalho como indigenista, após sua aposentadoria, foi agraciado nos anos 1980 pelo governo brasileiro com a Medalha Nacional do Mérito Indigenista, na categoria Pacificador.

É o único maranhense detentor dessa condecoração, honraria até então concedida aos irmãos Cláudio e Orlando Villas-Boas. Seu trabalho rendeu estudos antropológicos, inclusive de cientistas e acadêmicos de universidades brasileiras e dos Estados Unidos, como do Instituto Smithsonian.

Olímpio Cruz foi membro da Academia de Letras de Brasília, da Academia Maranhense de Trovas e da Academia Barra-Cordense de Letras.

Da sua bibliografia, destacam-se os seguintes livros: * Puturã, poesias, edição do autor. São Luís, 1946. * Canção do Abandono, poesias, edição do autor, 1953. * Vocabulário dos Quatro Dialetos Indígenas do Maranhão, pesquisa. Edição da Secretaria de Cultura do Estado, Sioge. São Luís, 1972.

* Clamor da Selva, 1978 (1ª Edição). Reeditado em 2015. * Lendas Indígenas, Editora Thesaurus. Brasília, 1980. * Cauiré Imana, o cacique rebelde, Editora Thesaurus. Brasília, 1982. Reeditado em 2015.

O escritor, poeta e sertanista participou ainda de várias edições do “Anuário dos Poetas do Brasil”, organizadas e editadas, no Rio de Janeiro, pelo poeta Aparício Fernandes.

Ao falecer, o autor deixou, inéditos, os livros “Cinzas do Tempo”, sonetos, e “Relatório Sertanejo, Barra do Corda no Cordel de Olímpio Cruz”, poesia popular, concluído por volta da década de 1970, publicado em 2009 e reeditado em 2015.

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