Sobre o livro
Esse livro de poemas visuais traduz o encontro da memória explícita de com a intenção de brincar com os termos poéticos em um mundo construído com o afinco dos destinados. Busquei o título mais vulgar que pudesse ser encontrado no mundo dos livros. Chora Rita.
Chora Rita é o nome de uma cachaça que se punha muito popular há cerca de uns vinte anos e nem sei se ainda existe no comércio comum. Foi a primeira pinga que entrou para a minha coleção de rótulos de aguardente.
E para não deixar dúvidas de que o nome Chora Rita pode extrapolar a simples casualidade de um som e de uma garrafa de pinga, resolvi dizer isso em língua russa – Рита плачет -, de tal maneira ficando assim consolidado esse teor que extrapola a vulgaridade e se assenta no assunto da estética.
Assim, pura e simplesmente assim.
Como o livro inteiro lida com os visuais e sobre eles uma poesia que caça o impacto imediato, nos termos dos achados poéticos, a memória aventada, a mesma que citei anteriormente, remete-me aos idos de 1974 e 1975, quando ainda era adolescente e tinha a constante presença do colega Luís Carlos Kalil ao meu lado, ambos tínhamos quinze anos de idade, quando nos interessávamos por ates plásticas de uma maneira aferrada.
Luís Carlos Kalil seria, anos mais tarde, o Dr. Luís Carlos Kalil, psiquiatra de renome e professor da UFTM – Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Enquanto a mim tocava o interesse pela Literatura, a ele sobrava o interesse pela Pintura. Seus pintores prediletos eram Marc Chagal e De Chirico.
Foi através dele que o meu interesse pela Pintura sopitou.
É por isso e não sem muitas razões que o prefácio do amigo Calil surge nesse livro. Um desenho, o que único que me restou dele. Parte que pode ser interessante, depois que ingressou na faculdade de Medicina, nunca mais pintou, tendo se aficionado à Fotografia, embora não tenha feito disso um tema de vida. Quanto a mim, segui produzindo livros de muitas jaças, embora também tenha me ingressado no curso médico e seguido carreira.
Kalil não está mais entre nós há cerca de quinze anos. Acidentou-se e se foi no rumo de Chagal e Giorgio. Eu fiquei com esse desenho simplório nas mãos por muitos e muitos anos. Está comigo há 46 anos. Agora, diante da oportunidade de pedir ao velho amigo um desenho, esse surge pronto e estupendo.
Está aí à guisa de prefácio e vai sobreviver por outros tantos lustros. É um desenho fascinante. Fascinante porque não traz nenhum compromisso e se Kalil estivesse vivo, jamais saberia dele.
Não se lembraria que um dia, em plena sala de aula, aula de física, tenha me passado esse desenho que guardei até o dia corrente.
Entretanto, mais coisa ainda pode ocorrer como vantagem de fantasia. Se estivesse vivo, eu tenho certeza que diria que Chora Rita não é nome de livro de poesia. Isso é nome de cachaça de quinta categoria. Isso todo mundo sabe, nem é preciso repetir.
Ocorre que o som me surge com essa categoria expressa de que Рита плачет será um verbo bastante sonoro dentro dos giros cerebrais de quem aprecia poesia. Mesmo em português esta Rita é danada de sonora.
E Chora Rita entra com a música de acordes abertos, tanto no Rita quanto no Chora, a tal ponto o embate fica curioso que esse nome se tona a expressão simples de quem chega ao balcão de um botequim de arrabalde e mostra dois dedos, um jeito de pedir a bebida quente.
Lá está a cara da Rita, a rir no rótulo. Sorridente. Chora coisa nenhuma. Uma Rita loura e com dentes à mostra por conta da abertura do sorriso. E a garrafa lá, a série delas, clarinha e demonstrando que inventaram um nome extraordinário para uma bebida fatal.
Então, por ocasião dos 200 anos da cidade de Uberaba (ano de 2020), Hélio Siqueira e Paulo Miranda propuseram apresentar à cidade trabalho que seria feito a quatro mãos, incluindo os dois pintores, Jorge Alberto Nabut e José Humberto Henriques, ambos poetas. O nome do projeto seria 4X4 e incluiria obras de todos.
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