Chega de se esconder!: Pós–graduação, Mestrado, Doutorado para quê? Encare sua profissão de frente!
Por Marcelo Goulart FlorianoSobre o livro
É curioso como nos acostumamos a construir fortalezas em volta de nós mesmos, como se temêssemos o simples ato de existir em plenitude no mundo. Não bastasse a complexidade que é viver, nós inventamos modos ainda mais sutis de nos ocultar daquilo que nos desafia.
Entre esses modos, o culto aos títulos acadêmicos se tornou, para muitos, uma das trincheiras mais respeitadas e menos questionadas. Dizem que o saber liberta.
E de fato, o conhecimento tem o poder de expandir horizontes, de iluminar zonas sombrias da ignorância, de oferecer meios para entender e transformar a realidade.
Mas há um paradoxo sutil escondido nesse poder: às vezes, quanto mais nos cercamos de teorias, mais nos distanciamos do ato concreto de viver o que aprendemos. Estudar vira um fim em si mesmo. E ao invés de nos preparar para o mundo, a longa jornada acadêmica acaba por nos afastar dele.
Esse livro não é uma afronta gratuita a quem decide se aprofundar nos estudos. Não se trata de um manifesto contra universidades ou contra o progresso intelectual. Seria uma tolice, até mesmo uma hipocrisia, atacar o saber. A questão aqui não é o estudo, mas o uso que fazemos dele.
Não é o diploma em si, mas a função que ele ocupa dentro de nós. Em que momento o estudo se transforma em esconderijo? Em que instante o amor pelo conhecimento se contamina com o medo de agir?
Muitos carregam seus currículos inchados como escudos reluzentes, orgulhosos por poder apontar linhas e linhas de conquistas acadêmicas.
Entretanto, quando se observa atentamente, descobre-se que alguns desses escudos não servem para defender grandes batalhas profissionais, mas apenas para proteger um medo miúdo, quase infantil, de encarar o mercado, de lidar com o imponderável, de se sujeitar ao julgamento do outro.
O título, então, se torna o álibi perfeito para não arriscar. Vivemos numa época em que é mais fácil adiar decisões do que assumi-las. O ambiente acadêmico, com seus prazos longos, suas regras claras e seus ritos bem definidos, oferece uma zona de conforto rara num mundo tão caótico.
Ali, você sabe o que fazer: leia, escreva, entregue no prazo, defenda perante uma banca. O jogo é conhecido, os papéis são estabelecidos, as expectativas são explicitadas. Fora dali, o mundo é um lugar de surpresas constantes, de demandas urgentes, de erros inevitáveis.
É natural que, diante dessa comparação, muitos prefiram prolongar a estadia nos corredores universitários. Mas chega um ponto em que isso deixa de ser escolha saudável e passa a ser fuga. Uma fuga travestida de virtude, porque, afinal, quem ousaria criticar alguém que se dedica a estudar?
O estudo virou um salvo-conduto moral. Quase ninguém questiona as verdadeiras motivações por trás de um novo curso, um novo certificado, uma nova tese. Ser chamado de estudioso é um elogio, enquanto ser chamado de covarde ou indeciso fere o orgulho.
Logo, inconscientemente, opta-se pela rota que garante aplausos, ainda que ela esconda um medo profundo de falhar no campo prático.
Ao longo dos anos, tenho observado profissionais que adiam indefinidamente o início da carreira plena, sempre à espera do próximo título que finalmente lhes dará a coragem que não encontraram dentro de si.
Mas coragem não se compra, não se conquista por créditos acadêmicos, nem se mede pela quantidade de horas-aula. Ela é construída no atrito diário com a realidade, com o erro, com a pressão de ter que entregar resultado. É no desconforto que o profissional cresce, não na segurança de uma sala de aula.
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