Sobre o livro
Feliz.Foi assim que reagi na primeira vez que li os textos de Luana Vitória Ucha. Mas fiquei intrigado. Imagens e ideias não me saíam da cabeça. E não conseguia explicar a mim mesmo, para que tranquilizar, os motivos pelos quais fiquei intrigado e inquieto. Sim, os textos me tiraram a tranquilidade, criaram um desconforto que não passava. Eu precisava de alguma explicação para afastar o que me inquietava.
Quer um exemplo? Um verso que não me saía da cabeça. Sim, eu disse mesmo verso. Porque os textos de Luana são também poemas. Possuem um ritmo próprio da poesia. Da mesma forma que inquietam como a poesia.
“Não quero mais ser quem um dia pude ser”. Até onde essa ideia me leva? Essa imagem: “não posso viver numa ponte que me paralisa, já que assim não sigo para onde o socorro me grita”. Dois, apenas dois exemplos de inúmeras imagens poéticas às quais o texto de Luana nos conduz.
Assim como eu, aposto que muita gente se encanta com imagens poéticas como essas. E a expressão correta é mesmo essa, encantamento. Buscando racionalizar o que senti recorri ao filósofo e linguista norte-americano Charles Peirce, aquele mesmo considerado um dos criadores da Semiótica na segunda metade do século XIX.
Isso porque o texto de Luana contém muitas ideias que pegam seus leitores de surpresa. Pierce diria que são fenômenos de primeiridade. Nos pegam de surpresa até que reagimos. E leva tempo até que o que nos afeta fique claro e se encaixe numa explicação racional.
Bem, aí é que está o problema. Sentir os efeitos do que nos incomoda até que a racionalização se imponha e nos ajude a sair do desconforto. A esse processo de racionalizar alguma coisa, algum fenômeno que percebemos, Peirce dá o nome de terceiridade. Àquele que nos afeta e incomoda ele denomina de secundidade. E, convenhamos, ficar muito tempo sentindo um incômodo sem explicar o motivo não é nada fácil.
Chegamos então ao ponto em que se pode perguntar se consegui escapar do ardiloso incômodo a que me levou ao ler “Chances de dizer que te amo”. A resposta é não. E não vejo demérito nenhum nisso. Afinal, Clarice Lispector até hoje é um incômodo ao qual eu reincido prazerosamente. A cada leitura, uma cutucada que me leva adiante.
É o que espero de Luana Vitória Ucha. Que me cutuque muitas vezes com os seus textos porque sei que me levam adiante na busca permanente de uma explicação. Esse não é o gatilho do novo?
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