Cartografia das Ilhas Comatosas

Por Annie Dymetman

Sobre o livro

O forte impacto do desfecho de um coma por meningite, é vivido e relatado aqui como um repente, como um supetão: “abriu a porta e entrou em coma”.

É um pouco, é quase como morrer, pois para morrer é preciso não sabê-lo, e o coma é a morte que se sabe que se morreu, por ser ela a morte da qual pode haver retorno.

O estado comatoso, sobre o qual se debruça a subjetividade, é de pura derrama e transborde entre emoção, inconsciente, insignificância e nonada. Assim, não só o autor/a e a escrita como o leitor/a e a leitura, necessariamente acontecem numa dimensão de “suspensão”.

Desde o pós-coma, este configura-se não como episódio único, extra-cotidiano, e sim como vivência de toda a vida, cujas curvas e côncavos é possível revisitar, repescando acontecimentos disjuntados e desassociados, como ilhas a comporem uma cartografia pessoal, fluída e que, por ser como é, funde, dissolve e liquefaz seus conteúdos.

Descobre-se, então, que além dos estados líquido, sólido e gasoso, podemos nos apresentar em estado comatoso.

Cenas e palavras, letras e memórias, ocasiões em que vivemos vidas paralelas e/ou emprestadas – nas quais embora estejamos, não estamos inteiramente -, esparramam-se ao acaso, dependendo de afinidades ocultas e de mistérios indecifráveis, desenhando e conectando um arquipélago denso e abarrotado de pequenas ilhas comatosas.

E, no repente, eclode ainda uma última ilha inesperada, de ímpeto devastador, a pandemia do Coronavírus, deixando o mundo dilacerado entre duas ilusões: a de que tudo voltará a como era e a de que nada voltará.

Mudança mais, mudança menos, com a suspensão absoluta do absoluto das vidas cotidianas, de seus sistemas e narrativas de sustentação, no nível do real, o irreal adquiriu corporeidade, através das medidas de sobrevivência. É a humanidade inteira invadida pelo estado comatoso.

Foi o mundo que se declarou e foi declarado em coma. Aí vamos, tomados por um novo episódio, agora planetário. Decifra-se o enigma do coma, no impacto apocalíptico do vírus: a suspensão tornou-se estrutural. Estados comatosos individual e global, experiências únicas de suspensão do mundo e do tempo.

Vive-se o fim do quê, pensava-se, era sem fim… Se do lado de fora, tudo que é sólido desmancha no ar, dentro, tudo o que é sólido, líquido ou gasoso, passou a ser comatoso.

No sonho do homem que sonhava que o sonhado despertou, não se sabe se o mestre foi quem sonhou ser borboleta ou se foi a borboleta que sonhou o mestre.

O olhar dual não diferencia entre sono e vigília, entre as duas vidas, uma antes e a outra, depois do morrer: a verdadeira história não é o que sucedeu; é o que se pensa que sucedeu.

No estado comatoso em que estamos mergulhados, indeterminação entre duas realidades, temos a liberdade, mais, a responsabilidade da reedificação, em que absolutamente qualquer nova forma é possível.

Num mundo de estruturas, protocolos e realidades em suspensão, cabe suspender a própria suspensão, pois o pior que pode acontecer com a pandemia é o mundo não mudar e é, também, nós não mudarmos o mundo,.

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