Camumbembe: Contos

Por Adelice da Silveira Barros

Sobre o livro

O intrigante título deste livro de Adelice da Silveira Barros é um enigma proposto ao leitor: o que significa, afinal, “camumbembe”? O dicionário responde: é um vadio, um vagabundo, um mendigo.

No conto “Vida de gato”, esse substantivo comum torna-se próprio, é o nome que o protagonista dá a seu gato, um vira-lata achado na rua. Dono e animal, o leitor logo percebe, são igualmente vadios e vazios, sem rumo na vida. Ambos camumbembes.

Nomeando o livro, e não o conto onde aparece, essa palavra estranha amplia seu potencial metafórico, estendendo-se a todos os contos. Mais que isso, converte-se no paradigma unificador, no leitmotiv que cose as dezoito narrativas.

De fato, percebe-se que a autora detém seu olhar sobre o avesso da vida, aquele lado camumbembe que se quer esconder e dissimular, que não é o melhor nem o mais atraente, que põe a nu suas emendas e cerzidos, seus arremates e nós.

Um lado sem mistérios e sem encantos, mas que revela e explica o outro. Nesse avesso torpe e sofrido do livro de Adelice, encontramos neuróticos de várias estirpes e idades, meninas e mulheres degradadas e prostituídas, suicidas e assassinos, devassos de toda espécie, doentes do corpo e da alma.

Vazios e perdas também comparecem, incluindo-se o vácuo criativo, que estanca o do escritor – viés trabalhado de modo muito original em “Um tema, por caridade” e em “De olho no diabo”.

Esses dois contos fazem fronteira com a literatura fantástica, caminho que a autora trilha em algumas outras narrativas deste livro.

Outros contistas contemporâneos, como Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, também escolheram o lado escuro da sociedade, feito de mesquinharia, opressão, aviltamento e violência. Aliás, essa face negra está todos os dias nas manchetes dos jornais, nos noticiários da televisão.

A sensibilidade de Adelice, contudo, não repete a narrativa elíptica de Trevisan nem o seu oposto, hiper-realismo de Fonseca.

Equilibrando-se entre esses dois extremos, alcança uma modulação própria, ao compor seu livro como uma sinfonia, em que a diversidade de personagens, cenários, tempo e vozes narrativas compõem um todo harmônico, sem dúvida, capaz de agradar ao leitor mais exigente.

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