Sobre o livro
Livro de poesias que recebe um título estrambótico, como se fora um chamamento esdrúxulo sobre a figura de alguma pessoa. O autor revela na dedicatória que escreve e dedica esse livro a uma palavra em extinção. Cafuçu. Ou seria Cafussu.
De qualquer maneira, a inventividade de Humberto Henriques é tamanha que não chega a tornar o título uma peça arcaica ou obsoleta. Os poemas são raros e tangem o leitor para uma busca contínua, uma exigência que embeleza a forma, o conteúdo sendo máximo à medida que se chega ao clímax dos versos.
Portanto, trata-se de um livro magmático e que segue os padrões de criação anteriores desse autor ilimitado. Os poemas primam pela síntese e seguem a teoria malarmaica de toda criação possível que possa ser imaginada.
Não obstante ser o título esse emblema entre o Alto Paranaíba e os cafundós do estado de Goiás, todo o livro reflete o conhecimento amplo do autor acerca de um mundo estético universal. Humberto Henriques, sem a menor dúvida, representa a criação latina da poesia dentro do mundo das Letras.
É por isso que essa amplitude deve ser medida com mais ponderação.
Quando questionado sobre determinados assuntos, Humberto Henriques sempre responde com o humor daqueles que não são obrigados a responder a nada. A bulhufas. Esse argumento de não ter que responder a nada é que faz o argumento ascender e se tornar mais capitoso.
Por isso, quando tergiversa dentro desses sistemas de fuga ou esconderijo – todo escritor se precede na fuga, busca estar isolado do resto do mundo, defeito de nascença de todos eles – Henriques traz sempre uma palavra de novidade para ser apresentada ao mundo.
Pois que, como me coube fazer a análise e a apresentação dessa obra, sempre ajunto alguma palavra do autor. A finalidade disso é facilitar a biografia, pois que elas, as biografias, quase nunca são fidedignas ou têm o odor procrastinado daquele que está a ser biografado.
Então, a importância desse sistema distinto de fazer a apresentação de um livro qualquer. A apresentação do livro já vem com a dimensão dos dedos do autor. Oxalá um pedaço de sua alma que pode ser averiguada mais de perto.
Então, esse termo que aqui ressurge, talvez nem esteja presente nos mais de 360 livros que o autor escreveu, traduz com veracidade a forma de falar do mineiro dessa região. Cafuçu é termo irônico ali pelas beiradas do Rio do Salitre, o Sapé, a Serra da Lavrinha, o Brejo Bonito e a Serra do Salitre.
Isso sem esquecer a dimensão do Cruzeiro da Fortaleza e da Guimarânia. Quando alguém se dedicava a dizer que alguém era Cafuçu, segundo o termo do dicionário isso é um neologismo, porém, se bem pensado, deixa de ser neologismo porque já foi incorporado ao vernáculo.
Tanto isso é verdade que o próprio dicionário não desconhece esse artefato e traduz o termo cafuçu como desinência para uma criatura sem importância, sem valor, meio miserável no meio dos mais rudes miseráveis.
A palavra chega a designar de forma pejorativa a nomenclatura de uma criatura qualquer que não teria o menor peso no seio de uma possível sociedade de consumo.
Então, sendo isso, Henriques se lembra da infância ali pelos meios de serranias e beiradas de aguadas diversas, vide o ribeirão das Pitas, nobre ribeiro onde o poeta pescou seus exemplos de peixes, quando se encontrava em casa de algum dos parentes mais abastados, todos eles muito abastados, momento em que recebia a saudação feita pelos varões.
Olá, Cafuçu… Tudo bem, ó Cafuçu? Era palavra mais afeita á boca dos homens. As mulheres pouco usavam isso. Segundo Henriques, a palavra passou de um momento de negatividade para um momento seguinte de pura ironia.
Deixou de ser aquela imagem simplesmente negativa para ser incorporada ao imaginário coletivo como exaltação e uma saudação comumente usada de forma até que agradável.
Como suas lembranças mais apropinquadas, ele se lembra do primo João Amarelo, o filho caçula de João Gustavo, aquele que sempre o saudava da altura das varandas majestosas com a palavra
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