Bicho–da–seda

Por Luiz Eduardo de Carvalho

Sobre o livro

Um romance histórico, situado entre os anos de 1945 e 1982, acerca da diáspora japonesa no pós-guerra, que conta a história de Emi Watanabe, a última descendente de uma tradicional família dedicada á produção da seda. Nos últimos dias do conflito mundial, Emi foge do Japão rumo à América do Sul.

Após muitas agruras e humilhações durante a travessia oceânica, ela chega à costa chilena, de onde parte rumo ao Paraná, no Brasil, cruzando a zona meridional do continente.

No trajeto, junta-se a outros japoneses em fuga para, com eles, formar uma pequena comunidade que dará continuidade à criação do bicho-da-seda a partir de algumas lagartas que trouxe consigo.

Em território brasileiro, o destino de Emi redesenha-se e a história prossegue pelas duas próximas gerações, apresentando o processo de superação dos traumas do exílio e a dificuldade de adaptação a uma cultura completamente diferente.

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Texto da orelha do livro físico:

O que mais nos surpreende nas histórias de Luiz Eduardo de Carvalho é sua versatilidade; sua coragem em abordar com grande talento temas difíceis, polêmicos; sua ousadia de enfrentar universos diegéticos muito distantes de sua realidade imediata, como podemos constatar em seus grandes e premiados textos como “Sessenta e seis elos”, “Xadrez”, “Quadrilha”, “Cabra cega” e, agora, esse surpreendente monumento ficcional que é “Bicho da seda”.

Salta aos olhos o tremendo trabalho de pesquisa que consumiu o autor para construir uma pequena parte da história trágica e bela da imigração japonesa durante a grande guerra.

Na figura da jovem Emi Watanabe, e seu irmão Takeshi, descendentes de uma linhagem nobre de produtores de seda, o autor vai tecendo, como fora ele próprio um bicho da seda, uma história surpreendente de determinação e coragem.

Fugindo de um país arrasado, poucas horas antes da explosão da bomba em Hiroshima, um grupo de jovens japoneses, submete-se a toda sorte de abuso por parte de piratas, espécie de coiotes orientais, que os transporta pelo Pacífico até o Chile e, por terra, até o Brasil, passando por Argentina e Paraguai, numa odisseia sem heróis, deparando-se com uma realidade assustadora, clandestinos nazistas na América do Sul, trabalho escravo, tráfico humano, contrabando.

Impressiona a representação realista dessa odisseia, com todas as suas tremendas injustiças e crueldades. (continua)

O romance, ao adotar o processo de produção da seda, ao representá-lo com minúcia (o que demonstra sua grande capacidade de pesquisa para o tratamento literário), estabelece uma feliz alegoria da própria existência.

Poucas lagartas voam, a maior parte delas sucumbe, nos diz Emi em certa parte do livro. E não é justamente o que acontece com todos nós e que acontecerá com os personagens dessa história? O romance acompanha a saga de três mulheres num mundo de barbárie e crueldade masculina: Emi, Sueda e Yoko.

Hirota, um sobrevivente do inferno de Okinawa, torna-se o anjo protetor que, aos poucos, mostrar-se-á monstruoso. Não há espaço para personagens redondos, para perfis róseos e confortáveis. Para Luiz Eduardo de Carvalho, a vida é sempre um desconforto que precisa ser enfrentado.

A complexidade psicológica de cada um dos seres ficcionais de “Bicho da seda” é um dos pontos altos da narrativa. Luiz Eduardo mergulha sem receio, e sem qualquer julgamento, nas nuances de cada um de seus personagens, suas fobias, medos, taras, desejos.

Por trás da maciez e da beleza da seda, um mundo de asperezas e pequenas tragédias vai compondo o painel dessa grande história. Trata-se de um excelente romance, sem sombra de dúvidas, o que ratifica o autor como um dos grandes criadores contemporâneos brasileiros.

Leonardo Almeida Filho

Brasília, 7 de janeiro de 2024.

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