Sobre o livro
Título: Besouro Mangangá – O Cordão de Ouro Atual Autor: Ricardo H.
Guedes Gênero: Ficção Histórica A Lenda que Desafiou a Farda e o Destino A obra “Besouro Mangangá – O Cordão de Ouro Atual” é uma imersão profunda e visceral no Recôncavo Baiano do início do século XX, um período histórico de transição violenta onde a abolição da escravidão, formalizada pela Lei Áurea de 1888, não se traduziu em liberdade real para a população negra.
Neste cenário de opressão persistente, a narrativa tece a linha tênue que separa o homem, Manuel Henrique Pereira, do mito, o lendário capoeirista Besouro Mangangá.
A ficção histórica se estabelece sobre o pano de fundo de 1915, em Santo Amaro da Purificação, onde o ar é uma “sopa espessa de sal, melaço e desespero”. Para os libertos apenas no papel, a opressão trocou o grilhão de ferro pela farda cáqui da Brigada Militar.
É neste contexto que Manuel, um vaqueiro de compleição forte e um capoeirista forjado no fogo da roda por Mestre Alípio, é confrontado com a brutalidade do sistema.
O Nascimento do Mito e a Deserção A gênese da lenda ocorre no Trapiche de Baixo, quando um assobio agudo da polícia rasga a noite e a roda de Capoeira.
Em um ato de resistência pura, Manuel usa a Meia-Lua de Compasso com a “força devastadora de um coice de mula” para humilhar um sargento da Brigada Militar. A fuga, descrita como um “desaparecimento” em um “zigue-zague hipnótico”, confere-lhe o apelido que se tornaria seu destino: Besouro.
O ponto de inflexão da jornada de Manuel é a sua deserção. Após testemunhar a violência da farda contra o seu Mestre, ele abandona o uniforme da Brigada Militar, esmagando a insígnia amarelo-dourada sob a bota. Este ato é um suicídio social, mas um renascimento espiritual.
O Cordão de Ouro, a honra máxima da Capoeira que ele carrega, deixa de ser um símbolo de ordem comprada e passa a ser a marca de um pária, um bandido social que usa a Capoeira como arma de libertação contra a opressão dos jagunços e dos coronéis.
Temas Centrais: Capoeira, Fé e Resistência A obra explora com detalhe a Capoeira não apenas como arte-marcial, mas como uma filosofia de vida e um código de resistência. O leitor é conduzido por um universo onde: •O Grito do Berimbau é o chamado à luta e à esperança.
•O Corpo Fechado é a fé inabalável, a mandinga e o patuá de Tia Ciata que o tornam invulnerável a balas e facas comuns. •A Navalha no Pé é a tática de guerra e a linguagem que a República insiste em sufocar, classificando-a como “vadiagem e desordem”.
Besouro se torna o arquétipo do herói popular, o justiceiro que desafia a lei branca e se torna a personificação da esperança negra. Sua jornada é marcada por confrontos épicos, como o Acerto de Contas em São Caetano e a luta contra a Brigada Militar, que o caça incansavelmente.
A narrativa segue a ascensão de Manuel, desde o vaqueiro anônimo até o foragido que precisa se sustentar com o suor do trabalho, recusando-se a roubar para não manchar a honra do Cordão de Ouro.
O Desfecho Trágico e a Imortalidade A história de Besouro, no entanto, é permeada pela inevitabilidade da traição.
O mito do corpo fechado é testado e, por fim, quebrado pela faca de ticum, um instrumento místico que, segundo a lenda, é o único capaz de ferir um homem com o corpo protegido por mandinga.
O livro culmina no desfecho trágico que sela a imortalidade de Besouro, transformando sua morte em um ato final de resistência e sua vida em um sussurro de liberdade que ecoa pelos terreiros.
“Besouro Mangangá – O Cordão de Ouro Atual” é mais do que uma biografia ficcional; é um convite para testemunhar o nascimento de uma lenda que, ao misturar o fato e a lenda, celebra a memória de um dos maiores símbolos da Capoeira e da resistência negra no Brasil.
A obra é um estudo sobre dignidade, fé e a luta incessante pela liberdade em um mundo que nega a humanidade.
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