Aves Migradoras

Por José Valentim Fialho de Almeida

Sobre o livro

Mas tu és minha amiga, balbuciava a creatura querendo tomar-lhe as mãos n’uma supplica desolada. Devias ter dó d’esta fatalidade que me leva ao encontro de Ruy. Oh, tu não sabes! A idéa d’elle tira-me o somno, embebeda-me, convulsiona-me, vai commigo a toda a parte.

Tu ao menos tiveste familia, irmãos, alguem. A mim nunca ninguem me quiz. Os garotos puxavam-me os cabellos, meu pai batia-me em estando embriagado. Aos dez annos puzeram-me fóra, que fosse trabalhar. E andei descalça atraz dos porcos, ia aos sabbados pedir esmolas ás portas dos ricos.

Um verão agarram-me a furtar uvas n’uma vinha: o vinheiro era um bruto, jogou-me um tiro; e cheia de sangue, quasi morta, uns cavadores que passavam, foram levar-me a casa da minha madrasta.

Mas á embocada da aldeia, como eu ia estendida n’uma padiola de ramos, a senhora marqueza viu-me passar da sua janella, e por caridade, recolheu-me. Alli se fôra creando, a fazer companhia ao menino.

Ruy n’esse tempo era um despota, obrigava-a a saltar muros, a pendurar-se de cordas, a fazer de cavallo.

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