Assim calou Zaratustra: um romance literário sobre silêncio, discurso e poder
Por Além SantosSobre o livro
Assim calou Zaratustra é um romance literário brasileiro contemporâneo que investiga, com ironia fina e profundidade filosófica, o poder dos discursos e o silêncio que os ameaça.
Zaratustra é a voz pública mais influente e aguardada da atualidade. Quando decide calar-se misteriosamente no início de uma palestra, instala-se uma crise com fãs, patrocinadores, críticos. Cabe a Assis, chefe de sua assessoria e quem narra a história, administrar expectativas, pressões e o desconforto coletivo diante do silêncio inexplicável.
Com a convicção de que o mundo precisa daquela voz, Assis dá início a uma farsa cuidadosamente construída: passa a escrever e publicar textos fingindo ser Zaratustra. O que começa como tentativa de preservação transforma-se em um jogo perigoso de identidade, poder e autoengano.
Narrado em primeira pessoa por uma voz narrativa não confiável, profundamente irônica e contraditória, o romance dialoga com a tradição machadiana e com a literatura de ideias, explorando temas como autenticidade, performatividade social, discurso público e a fragilidade das verdades contemporâneas.
A sustentar cada vírgula falseada, infla-se no ego de Assis a convicção de que tudo se faz em nome da esperança necessária para que a humanidade atravesse seu momento mais sombrio, de onde só podem resultar a mais brilhante superação ou o mais lamentável desfecho.
“Eu só teria mesmo uma vantagem ao consultar Zara antes de publicar o texto: poderia pedir sua opinião, ver se eram mesmo palavras que sairiam de sua boca. Com a ilusão inflada, poderia até pensar em convencer Zara a redigir um texto próprio, fazê-lo um texto autêntico. Mas o quê!
Pediria isso apenas para ganhar em resposta seu silêncio e seu sorriso debochado? No fim, precisei confiar que minhas palavras seriam boas atrizes. E foram. A mais sábia das sabedorias também pode ser imitada e soar convincente. Assim falo eu.” (ASSIM CALOU ZARATUSTRA, p.29)
“Assim calou Zaratustra” é uma obra marcadamente intertextual; um forte flerte da Literatura com a Filosofia (em especial Nietzsche); um texto que desponta em diversas questões contemporâneas, como fake news, cultura do cancelamento, era digital, o poder e a forjabilidade de discursos, a imersão em cenários com teores cada vez mais apocalípticos.
Além disso, também é uma obra com suas marcas estéticas, como a narração sarcástica de Assis trazendo o leitor como personagem-testemunha de seus atos.
“É avançada a hora da humanidade. Avançamos num relógio no qual o dia não vira. À meia-noite, tudo acaba. Está escuro, está tarde e o tempo acelera. Ouvimos o tic-tac dos ponteiros, o giro das engrenagens. Vemos os segundos e seus milésimos preciosos escoarem sem que haja mãos para contê-los.
Todas essas são as simples constatações. Terríveis e simples. Como constatar que nosso mundo está em chamas. Também pode ser relativamente simples entender quem deu corda no relógio, quem fomentou as chamas que nos consomem a todos igualmente.
Terríveis, simples e majoritariamente inócuas constatações. O que nos dizem, afinal, sobre como parar o relógio ou fazê-lo retroceder? O que nos dizem sobre onde conseguir água suficiente para extinguir o fogo, ar suficiente para limpar os céus?” (ASSIM CALOU ZARATUSTRA, p.331)
Indicado para leitores que buscam ficção literária, romance psicológico, romance filosófico e literatura brasileira contemporânea de alta densidade.
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