Sobre o livro
O que chamamos identidade – ou a forma como nos perguntamos sobre o que é identidade ou sobre qual a nossa identidade – é uma versão da história e da cultura produzida pelos vencedores.
O que chamamos Amazônia também: a “verdade” que a nomeia como “região” (ou seja, como parte de algo, forçosamente impondolhe uma condição de subalternidade) a concebe como espaço física e socialmente homogêneo.
Nessa interpretação dominante, a história amazônica é recente, a sociedade amazônica é potencialmente livre de confl itos e a paisagem corresponde a um “todo”, que uma mente holística não deixará de compreender com apoio de adjetivações teleológicas, associada a ideias como “patrimônio imutável”, “imenso verde”, “pulmão do mundo”, “futuro do Brasil” e outras bobagens correlatas.
Essa interpretação está presente no pensamento mediano brasileiro e também nos grandes agentes do planejamento de estado.
Os próprios amazônidas acatam essa representação e a alimentam, muitas vezes encenando uma identidade que lhes é atribuída, muitas vezes adotando uma espécie de consciência alegórica de si mesmos, como se desejassem satisfazer as expectativas do olhar estrangeiro.
Ocorre que, ao contrário desse pensamento, a Amazônia é um espaço vivo e em movimento. Do fundo de seus vazios, de seus silêncios, da sua longa e tumultuada história há, no espaço amazônico, um tumulto, uma vivacidade, um confl ito explosivo. A Amazônia não é uma região, é um lugar em movimento.
Este livro parte dessa ideia e procura perceber os detalhes que não encenam a Amazônia presumida, ou, por outro lado, os detalhes que, na sua alegoria peremptória, comprovam a encenação dessa Amazônia ao agrado dos seus colonizadores.
Procura mapear os elementos de disrupção do tecido social ao qual eles se envolvem: as identidades não-enunciadas, latentes, esquecidas.
As identidades que foram derrotadas em outro tempo mas que persistem e resistem, seja por meio de lutas simbólicas declaradas, seja por meio das travas silenciosas da representação.
Caboclos, ribeirinhos, quilombolas, índios, “novos” índios, índios “ressurgidos”, varjeiros, camponeses, camponeses da Terra Firme, assentados, camponeses “de asfalto”, habitantes da “fronteira”, heréus, artistas “nativistas”, modernistas da periferia do capitalismo, amazônidas velhos e novos…
Muitas e variadas são as Amazônias, à despeito da sua representação dominante como “região”, como espaço coerente de identidade.
Este livro parte da compreensão de que uma “identidade” – pessoal, coletiva, territorial, cultural, qualquer outra, enfi m – não possui nenhuma consistência ou validade superiores a efi cácia simbólica em fi rmar posições, lugares de fala, formações discursivas.
Os artigos que o compõem dialogam com identifi cações em curso, com processos intersubjetivos de construção de sentidos identitários. Assim, discutem uma Amazônia em curso, em invenção e reinvenção. Uma Amazônia do presente e para o futuro.
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