Sobre o livro
Um livro, dois finais. Você decide como a história termina!
Há bares que funcionam como úteros de amizade: lugares onde homens se sentem autorizados a dizer o que não dizem em casa. É num desses bares que Henrique, Camargo e Barbosa se encontram para mais um ritual noturno.
Amigos desde a infância, os três dividem agora algo que desconhecem: as camas em que dormem são habitadas por mulheres que se chamam, cada uma, Helena. Helena, a esposa de Henrique, professora universitária como ele.
Helena, a mulher de Camargo, dona de uma floricultura e um riso que os outros dois conhecem bem demais. Helena, a namorada de Barbosa, mais jovem, silenciosa, que há seis meses lhe pediu uma tatuagem como prova de compromisso.
A noite começa sem tensão. Henrique, que ostenta uma barba longa e grisalha cultivada como trincheira intelectual, faz pose de anfitrião mesmo fora de seu território. Camargo, o mais pragmático, dono de uma loja de ferragens, bebe com a cadência de quem está acostumado a suportar.
Barbosa, o mais emotivo, já na segunda cerveja se declara o homem mais feliz do mundo — e é precisamente por isso que os outros dois sorriem com malícia, porque sabem algo que ele ainda não sabe.
Uma palavra dita no tom errado, um silêncio longo demais, e as revelações começam a escorrer. Henrique, num momento de vanglória, confessa que a Helena de Camargo é “uma mulher incompreendida”.
Camargo, com a calma de quem devolve um presente estragado, revela que a Helena de Barbosa apareceu deslumbrada em sua loja certa tarde. Barbosa, já com os olhos vidrados, ri sozinho e diz que a Helena de Henrique tem uma cicatriz que ele conhece bem.
Em menos de meia hora, o ciclo se fecha: cada um deles come a mulher do outro. Três traições, três Helenas, um círculo perfeito de conivência e humilhação.
É quando o garçom — um homem de meia-idade, presença tão constante quanto uma estante no bar — se aproxima da mesa para recolher os copos vazios. E, querendo ver o circo pegar fogo, acrescenta: “O Márcio, do lado ali, vocês sabem, né? Que quem apresentou as três Helenas pros seus corpos foi ele. As três. Antes de qualquer um de vocês.” O silêncio que se segue é indescritível.
No meio do turbilhão, uma aposta absurda — a única forma que os três encontram de não se encararem — ganha corpo. Henrique aposta cem reais que teria coragem de tingir a própria barba de ruivo, ali mesmo, com tinta comprada na farmácia da esquina. Ele perde.
E enquanto passa a tinta nos fios, diante do espelho do banheiro do bar, vê refletido não um professor doutor, mas um palhaço de sua própria ópera. A barba — seu ornamento de autoridade — se torna, dali em diante, uma insígnia de ridículo.
Bêbados, unidos por uma fúria súbita que substitui o ciúme e a culpa, os três tomam uma decisão: Márcio, o tatuador, será punido. Atravessam a distância até a loja do acusado. E é diante da porta, com o zumbido da agulha elétrica ao fundo, que a história se bifurca em dois destinos possíveis.
No primeiro desfecho, a violência irrompe. No segundo desfecho, eles entram na loja e encontram Márcio calmo, como se os esperasse. O leitor decide se essa noite termina em sangue ou em vergonha. Decide se a amizade sobrevive à verdade ou se a verdade, afinal, sempre foi maior do que eles.
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