Antes que a ilusão se desfaça

Por Sérgio de Paula Reis

Sobre o livro

Anoiteceu, faltava um voto – a Morte mantinha a esperança. Ela chamou Vanda, que empalideceu. O momento temido estava ali, tão presente que parecia irreal. Ela desejou que aquela noite já estivesse no passado.

O povo revistou seu rosto à procura de uma traição. Ela subiu os degraus com a vontade acorrentada. O olhar da Morte lhe era familiar. A mente oscilou como uma chama que quase se extingue e renasce na vela. O sino da igreja soou oito horas.

Vanda: “Voto por sua saída.” A frase, engasgada, confessava um crime brutal: o desfecho de uma antiga aliança. Morte: “Você terá a vida que merece.” Um calafrio percorreu a imaginação de Vanda – o pior não é a queda, mas a angústia que a antecede. Ela seguiu a Morte de longe, queria falar-lhe algo para se acalmar, mas a Morte arrancou uma raiz do cemitério, pôs o capuz e sumiu.

A ruptura com o passado foi tão violenta que se tornou impossível prever o futuro. Surgiram doenças que o túmulo nos poupava de testemunhar, loucura e droga entorpeciam a vida eterna. No abismo não resta nem mesmo a ilusão do céu.

Era uma vez uma muralha, um deserto e uma mágoa.

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