Aniagem

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Houve em últimos tempos a revelação do poeta que estaria fadado a encerra a criação de suas poesias misturadas com os visuais.

Henriques mencionou esta possibilidade, a menos que houvesse algum recurso novo de computação gráfica que permitisse a eclosão de uma novidade comportamental dentro do texto e da gravura. Do pictórico.

Entretanto, esta promessa não se cumpre com fidedignidade porque surge esse livro novo, Aniagem, um compêndio temático e que nos remete ao interior de uma mercearia dos tempos de antanho.

Por isso mesmo, todo o texto se revela nesse formato e tema, desdobra-se ao longo e em torno dele, oferece a fotografia e a imagética perfeita de um armazém que cuida de suas sacarias e oferece os grãos a partir das sacas de aniagem abertas nesse ambiente de cheiros, mofos e estalidos diversos da existência.

Ao mesmo tempo, os desenhos oferecidos fazem parte do mesmo tema. Não saem dessa linha de apresentação e estão sempre alinhados com essa dimensão de um mundo arquetípico.

Como no volume anterior de visuais, Cidadão Anônimo, livro que tratava da via pública em área urbana aparentemente organizada, esse outro, Aniagem, circunscreve a situação no núcleo imaginativo ao qual se dedica o tema.

Sendo assim, a homogeneidade da condição artística e a criação sempre em busca de novidades, baldado o caso de nem sempre isso acontecer num estalido de dedos, mostra que a afinidade entre a palavra e a aniagem sugerida é sempre uma condição de aperfeiçoamento entre imagem e forma, sem esquecimento de que o todo se conclama na estruturação de um compêndio perfeccionista.

Tudo se reorganiza a partir do princípio de que estamos a tratar de Criação. Esse tipo de agenda sempre diferenciada no trato de um escritor proeminente, como mesmo acontece na obra magistral e infindável de Humberto Henriques.

Vale a pena lembrar, a propósito da obra de arte como referência e mérito, esse texto de Guido Bilharinho, publicado na revista eletrônica PRIMAX número 10 – dezembro 2021. “A literatura é a arte da palavra, como se sabe, conquanto poucos entendam o alcance e significado dessa definição.

A consciência estética constitui, ainda, apanágio de alguns. Daqueles poucos justamente que, entre os milhões que escrevem, constroem, realmente, obra literária, ou seja, artística.

Normalmente, utiliza-se a palavra pensando, tentando ou objetivando elaborar obra literária, quando, na realidade, mas não se faz do que simplesmente expressar ideias, sentimentos e emoções.

Há, pois, na esmagadora maioria dos casos, enorme diferença entre o que se escreve, pensando estar se fazendo literatura, e o que efetivamente constitui literatura.

A questão toda reside em saber utilizar a palavra com finalidade artística, no sentido de que o objeto e objetivo do ato de escrever é a palavra em si e não o contrário, ou seja, sua subordinação a propósitos alheios à arte, como simples veículo de emoções, ideias, sentimentos ou teses.

Isto porque “não há a expressão de um objeto, mas o objeto de uma expressão […] A arte, enfim, não é expressão, mas produto […] A arte não tem filiais, ela apenas exprime a própria arte”.

Esse texto corrobora todas as ideias referentes à elaboração de um projeto artístico, estético até o âmago de sua concentração, dessa criação que hoje pode ser chamada com real valor e síntese, de material henriquiano, um dos mais densos e volumosos de todo o planeta.

Por isso mesmo, estando diante dessa sufusão, dessa pletora e desse sentido amplo do mundo das Letras, cremos piamente na evolução do mundo da poesia e sua associação com todas as artes plásticas concebíveis. A obra de Henriques fala por si mesma.

Os caminhos que esse grande poeta deve percorrer, doravante, estão sendo traçados pela sua própria criação. Apesar disso, não dá para se ter uma ideia exata de até onde esse caminho poderia se ampliar, já que estamos a tratar do autor solo mais prolífico do planeta.

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