Anatomia da Autoficção: Uma análise de O irmão alemão, de Chico Buarque.

Por jhonatan rodrigues

Sobre o livro

A pintura, que adorna graciosa e pertinentemente a capa desta obra, é intitulada ‘Vanity’, do artista francês Auguste Toulmouche. A mulher que se contempla e se deseja parece representar, com perfeição, o fazer literário dos autores de autoficção.

E as obras literárias autoficcionais têm se proliferado no cenário coevo da produção literária, elevando a autoficção ao patamar de tendência narrativa da atualidade.

Contudo, os estudos que se voltam para seu discurso não são consensuais em suas exposições e as teorizações em torno da autoficção geralmente não são confluentes. As teorias não raras vezes são antitéticas, estando algumas perspectivas teóricas acerca da autoficção em posições infensas.

O estudo do fenômeno estético autoficcional ainda se desdobra em, pelo menos, duas correntes de pensamento que visam entender a autoficção: a perspectiva estrita, embasada pelas ideias de Serge Doubrovsky, e a perspectiva ampla, alicerçada nos estudos de Vincent Colonna.

Imbuída de tantas controvérsias e incertezas, a narrativa autoficcional é uma das temáticas mais aporéticas da Teoria da Literatura contemporânea.

Levando em consideração a complexidade das representações autoficcionais, este trabalho visa analisar O irmão alemão (2014), de Chico Buarque, assinalando e pondo em destaque a sua natureza autoficcional: uma obra literária que coaduna deliberadamente elementos ficcionais e elementos factuais e exige um peculiar contrato de leitura estabelecido e selado pelo pacto ambíguo.

Em suma, além de um estudo analítico acerca da teoria da autoficção, pretende-se depreender o fenômeno estético autoficcional em sua manifestação na obra O irmão alemão.

Pensando na hibridez e na ambiguidade inerentes ao discurso autoficcional, a irrupção de problemas teóricos é inevitável: qual é a especificidade da autoficção? Quais são os discursos que a compõem?

Como ela se manifesta como fenômeno estético em uma obra literária contemporânea, especificamente em O irmão alemão?

Verifica-se, ao longo desta obra, que o gênero autoficção possui especificidades estéticas em seu discurso, tais como a relação de identidade onomástica, o pacto ambíguo e os fragmentos de existência, que o distinguem de outras formas de escritas de si, sobretudo, da ficção autobiográfica.

Também se observa que a obra literária O irmão alemão pertence ao conjunto de obras denominadas autoficcionais, visto que é possível identificar em sua tessitura textual as características essenciais do gênero autoficcional, incluindo a deliberada autorrepresentação por parte do autor, engendrando, ao mesclar dados factuais a elementos ficcionais, o efeito de ambiguidade que reverbera por toda a obra e caracteriza o pacto ambíguo.

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