Altos de La Serena

Por kleiton ramil

Sobre o livro

Ainda é dia quando Beto avista o paredão de pinheiros. Na entrada do parque, uma pequena placa logo intriga o protagonista. Uma forma abstrata faz com que ele questione se ali encontrará ave real ou apenas o que na madeira fresca pode ser talhado. Altos de la Serena desperta o curioso.

É o início da viagem de Beto, um gaúcho de Porto Alegre, estudante de Literatura, que parte de férias para uma reserva ecológica, no litoral do Uruguai.

Recém-chegado da grande cidade, depara-se não apenas com a silenciosa natureza bruta, mas com um fluxo contrário que faz seu corpo se alterar, como se quisesse virá-lo do avesso. É apenas Beto resistindo ao desapego.

Duplicado, em conflito com a própria consciência e sem saber para onde suas andanças o levará, o gaúcho segue por trilhas bifurcadas, acompanhando os rastros de quem está à sua frente. Vê cães de todos os tipos pelo caminho. Tropeça em bailarinos performáticos.

Esbarra em enredos policiais e ancestrais. Senta-se ao lado de Lennon e Debussy e os convida para um café. Embora aprecie a polifonia do lugar, Beto culpa a solidão pelos seus devaneios. O viajante não esperava que Altos de la Serena fosse lhe apresentar cenário tão peculiar.

Muito menos que se encontraria entre o realismo e o maravilhoso. É nesse espaço, onde o fantástico se sobressai, que o gaúcho se estabelece. É nele que contesta não apenas o outro, mas a si mesmo.

Confinado em sua própria trama dura, mambembe, sentindo as costas pesarem e as costelas espremerem o que lhe causa assombro, o rapaz continua pelo caminho. Até que encontra Ramona, uma simpática brasileira, que se afeiçoa a ele como a um filho.

De viajante, Beto passa a hóspede em um paraíso autossustentável às margens da lagoa do Rocha. É lá que a tormenta o convida para mergulhar. Diante do profundo vislumbre, o gaúcho avança por terras ainda mais desconhecidas.

Dá com o velho e solitário Valdez, o uruguaio dono de uma caverna rupestre; e desperta para os sinais ao conhecer a filha do novo anfitrião, uma antropóloga estudiosa do simbolismo. Reconhece a peça destoante com a qual se assemelha e redefine o que de fato deve ser o absoluto.

É o início da sua migração. Em êxtase, Beto passa a andar de pés descalços e a conversar com as manhãs. Deixa o corpo expandir, o coração acelerar, os poros respirarem e as asas aflorarem em nuances fosforescentes. Transforma-se.

De abstrato passa a real e segue em direção ao único percurso disponível. “Sou o que sou”. Altos de la Serena é uma viagem interior que expõe a razão à inesperada virtude da escolha.

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