ALMANAQUE DE CONTOS E POEMAS

Por HUMBERTO EUSTÁQUIO

Sobre o livro

TEATRO DE HISTÓRIAS

A minha avó, como já disse, era uma contadora nata de histórias. Seus olhos marejavam e também os de seus ouvintes, mas os meus gotejavam. Para disfarçar, eu me colocava a favor da fumaça que brotava da fogueira no centro da varanda e, de forma acanhada, recitava os versos do “carneirinho”, que logo faziam a fumaça mudar a direção, aliviando meus olhos de chorar.

O cenário era perfeito para o mister a que se destinava: uma pequena fogueira alimentada com lenha de pouca fumaça, tendo ao redor uns três bancos de madeira rústica, com capacidade para três ou mais ouvintes, sem encosto, de modo a dificultar cochilos indesejados. Os janelões ficavam sempre abertos, para facilitar a circulação do ar e consequente saída da fumaça produzida pelo fogo.

Os contadores das histórias raramente se revezavam, mas cada um tinha suas características próprias e peculiares. A minha bisa, já com seus quase cem anos, gostava de contar histórias dos escravos e garimpeiros, seus contemporâneos, e também de milagres atribuídos a santos de sua devoção.

A minha avó, uns 40 anos mais nova, tinha um ótimo repertório de histórias de lobisomens, mula-sem-cabeça e de assombrações; o meu avô era mais detalhista nas histórias e falava muito das suas andanças pelas fazendas da redondeza, como engenheiro, ou seja, fabricante de engenhos de pau para moer cana, ocasião em que aproveitava para “fazer pregação”.

A minha avó, coitada, falava que morria de vergonha quando ele começava a “pregar”, pois parecia que estava possuído e chegava a servir de chacota para algumas pessoas que não concordavam com o que ele fazia. É o que hoje se chama “bullying”.

Lembro-me que meu avô só parou de “pregar” quando foi ameaçado de excomunhão pelo Padre.

Na época da quaresma ele se preparava, jejuando pelos 40 dias e durante a Semana Santa ele escolhia locais na periferia da cidade para suas pregações, reunindo um número considerável de pessoas, muitos curiosos, outros críticos e uns poucos crentes no que ele dizia.

Ele não sabia ler, mas tinha uma capacidade incrível de decorar a Bíblia, pedindo que outras pessoas a lessem.

Tais pregações foram proibidas em definitivo, quando eu tinha oito anos, mas mesmo assim meu avô sempre me pedia para ler trechos da Bíblia e ficava impressionado quando ele os repetia em seguida, com as mesmas palavras.

Quando assisti a alguns capítulos de uma novela onde havia um personagem de nome Beato Salu, veio-me na memória a figura do meu avô, que pregava a Bíblia à sua maneira, adivinhava chuva, espantava pragas e até falava com os mortos, o que era na época, condenado pela Igreja com muita veemência.

As histórias que ouvia ao redor da fogueira foram várias e tentarei lembrar-me de algumas, pois foram incremento da minha formação de criança simples do interior. Prometo!

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