Sobre o livro
Esse livro é causador de muitas surpresas ao leitor. Depois de publicar vários compêndios de poesia visual, Alma: no singular retoma a poesia feita apenas com as palavras mallarmaicas. Trata-se de um livro que caça de forma reiterada a perfeição em poesia.
Em alguns momentos, lembra João Cabral de Mello Neto, tamanha a complexidade dos versos que se desenvolvem de uma maneira muito espontânea dentro de todo o poema. Cada poema tem um espectro muito particular. Desta maneira, é um livro que pode ser sugerido como leitura feita de uma tirada apenas.
É preciso pensar na forma de conduzir a leitura.
A dizer isso tudo de outra maneira, há que se considerar que o poeta não faz concessões em seus escritos e mantém a notoriedade de uma desenvoltura muito particular, somente possível naqueles escritores que já atingiram o cume de sua produção; portanto, se atufam dentro daquele fenômeno buscado por muitos e quase sempre nunca alcançado: o estilo.
Quem já leu um livro de JH Henriques, por certo que vai identificar todos os outros, apenas os tenha nas mãos, mesmo que sob uma venda de susto.
Para um poeta desse calibre, a poesia é ainda a quintessência de toda a Literatura, devendo ser buscada e rebuscada – não no sentido de proselitismo ou caprichos, mas somente na condição intrínseca da perfeição -, de tal maneira que o verso mais belo possa ser achado, mesmo que sob dificuldades de uma agulha imersa num velho palheiro.
Difícil, porém, possível.
José Humberto Henriques é um poeta assombroso. Capaz de misturar esse simbolismo anterior e essas vantagens de decandentismo – tipo laforguiano – com a figura absurda do surrealismo.
Aliás, diga-se de passagem, refuta a ideia de ser dito surrealista porque a palavra caiu na ordinária teia da popularidade e foi deformada em seu sentido e em sua figuração.
Segundo afirma, mesmo Salvador dali deve estar a mostrar os dentes diante da influência pernóstica que o gosto do período pós-guerra trouxe às Artes Plásticas.
O poeta, esse que criou Alma: no singular, faz referências durante largo tempo a tudo que acontece nas largas praias da Estética.
Por isso, essa constante preocupação em fazer com que seja a mantida a condição maleável da Poesia, mesmo que para isso seja necessário um certo sacrifício de busca, rebusca, criação e recriação. Esse esmero deve ter um nome de cinzel.
Como o autor mesmo diz, esse sofrimento constante leva o nome de sacrifício. Mesmo dizer em dias atuais que um homem é poeta, seja lá em que classe social for, tem sempre o esmegma da coisa pejorativa e acaba por desgastar quem do mote está feito e afeito.
No livro anterior, Portocaliu, os visuais primam pela sua condição de exigência de uma palavra sintética, enxuta, perfeccionista. Por ser um livro retirado da criação pelos recursos da computação gráfica, ele não admite as sobras e nem a perda de símbolos.
A figura, o desenho, o pictórico como um todo, ocupa um espaço relevante dentro do processo de criação.
Sendo assim, Henriques dá ao espaço e ao tempo esta obra sintética, que permite ao leitor a ocupação com um poema diário, o que já será mais que suficiente para aprimorar seu espírito diante das coisas bonitas. O Belo sempre há e ocupar espaço entre as fileiras da degradação.
Se não for assim, a derrota será muito maior do que aquela de Tutu Caramujo na porta da venda – segundo os deleites propostos por Carlos Drummond de Andrade. Tutu Caramujo na porta da venda, a preparar solidões para todo poeta desse mundo.
Por outro lado, esse livro novo que surge à luz do mundo, Alma: no singular, propõe a poesia em sua estante convencional e conveniente. Apesar de não contar com a facilidade dada pelos visuais, ainda é uma poesia de extremo poder sintetizador. Tudo nela tem proveito e poderia mesmo ser dita uma poesia para leitura nesses séculos atuais, tempo em que os homens não acham tempo de proveito sequer para aprimorar as brasas de seus tabacos.
O tempo desse século está revirado, os homens não têm tempo para na
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