Adriana Sydor, toda prosa

Por Adriana Sydor

Sobre o livro

Uma das inestimáveis contribuições da internet é a revelação de talentos genuínos que afloram nas redes sociais. Sim, há um aluvião de sandices, há um deserto de ideias coberto pelas ervas daninhas dos preconceitos.

É preciso aprender a andar neste terreno para evitar o lixo tóxico da pregação fundamentalista raivosa. Mas vale a pena o garimpo. É raro, raríssimo, mas sempre há a esperança de encontrar uma fonte de expressão original como o blog Mil Compassos de Adriana Sydor. O nome nos remete à música.

A própria autora é muito ligada ao universo musical. E talvez isso explique porque há tanta musicalidade e ritmo em suas narrativas, que é a primeira pegada que nos prende. Texto saboroso, que pode ser lido por ele mesmo, apenas por sua fruição.

E todos sabem que quando fazemos um achado desses, é ouro, é a glória. Ela domina a língua, mestra que é no assunto. E tem autoridade para subverter regras gramaticais pelo prazer criador de domar o léxico e fazê-lo servir ao texto.

Claro que certas normas são neces-sárias para que haja um padrão geral, mas a língua existe para nos servir. Adriana não tem pejo em decretar suas próprias leis, nunca definitivas, e estruturas de linguagem, nunca eternas, para favorecer a comunicação com o leitor.

Lúdica, sempre está a um passo de nova transgressão. Por que uma frase deve começar com letra maiúscula, se a maiúscula parece carregar o peso autoritário que prejudica a fluência gostosa da narrativa?

Por que o uso da vírgula é uma obrigação gramatical que não seguida corretamente torna-se imperdoável? E quem disse que trema saiu de moda? Ou que o melhor é o texto clean? Que as frases devem ser curtas e sempre na ordem direta? Os advérbios estão proibidos? Os adjetivos só em doses homeopáticas?

Gerúndios nunca? Bem, não apresente uma regra definitiva para Adriana Sydor, ela tratará de transgredi-la. Ri de tudo o que parece estabelecer um maneirismo de nosso tempo.

E faz desfilar episódios, incidentes, reflexões, encontros e desencontros que lhe brotam da realidade ou da imaginação ou de sua realidade imaginária para compor um mundo próprio que nos faz ver a vida com outro olhar.

Neste mundo veloz, com um turbilhão de responsabilidades que nos obrigam a pensar e esboçar rostos rígidos, sem alma, ela pousa o olhar em outra dimensão do tempo, capaz de apreender o que já não vemos, o que já não podemos sentir, e nos faz pensar.

Em suas andanças, olha à sua volta e descobre passarinhos, borboletas, flores, árvores, toda uma paisagem que nos passa desapercebida porque nosso olhar e nossa sensibilidade não têm tempo para isso.

Senta-se na calçada, num bar ou num banco de praça e ouve histórias que as pessoas querem lhe contar porque já não têm a quem dizer suas vidas. Ela não faz isso na busca de material para suas crônicas. Não se trata de um método de escritora.

Sob essa singeleza transparecem a sensibilidade, o humor, a ironia, mas sobretudo a profunda simpatia de Adriana Sydor pela natureza humana.

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