Aparecida é uma mulher violentada pelo estado em dias de chumbo no Brasil da década de 70. Uma das jovens em aprendizado político na universidade, que já lhe era estranha por conta de sua origem, gênero e raça, conduzida ilicitamente aos porões da ditadura no Rio de Janeiro, em dias em que convivia com a estranha idéia de ter parido uma menina com quem ainda não havia desenvolvido laços de maternidade. Filha, neta e bisneta de mulheres do Sabuapé, comunidade rural de São João do Meriti, Aparecida traz em sua vida-memória o caminho vivido para se tornar uma jornalista, mãe, filha, gente. Vítima de uma série de violências, mas também alvo de cuidados de uma linhagem de mulheres – Bisa Jandira, Vô Lourdes, Tia Nice, mãe Conceição, Mãe Dalva e Mãe Eugênia, Cida aprende sobre deixar para trás a dor, a baixa estima, a solidão, e aceitar, ativamente, seu odu. Para isso, vivencia sua história a partir de uma caixa de recordações da bisavó que lhe fora deixada pela mãe, após sua partida. Conchas, bibelôs e escritos de mães a conduz a percorrer e perpetuar as marcas indeléveis, aberê, deixadas em seu corpo-território que, tanto a faz doer, quanto a faz viver intensamente a estrada infinita até o encontro com as suas e fazer parte de uma família extensa. Após narrar dias horrendos na prisão, da qual se livre por meio de um mistério, ela retorna a São João do Meriti para (re)encontrar-se com o rio, com o desaguar nas águas e com o mangue, reconstituindo suas dores e suas cicatrizes como um caminho aberto à sua própria história. Sangue, pus, mas também mel e rio fazem parte deste caminho. O que une Cida à sua linhagem são os mistérios das águas doces, salgadas e salobras, que lhe trazem a oportunidade de construir a maternidade e o auto-cuidado ao receber em si o imperscrutável amor de mães e reconhecer-se parte do mistério ancestral . Aberê é a história deste caminho de encontro com a ancestralidade, de luta política abastecida por um corpo que se reconhece a partir da cadeia, da violência, do másculo estado. Aberê é marca infinita, que desafia os cronômetros do tempo para selar um odu de mulheres de luta, de estratégias cotidianas e que se espantam com o fascismo, com a visagem de uma história do passado que volta ao futuro. Aberê é luta política de mulheres que teimam em não se esquecer de seus propósitos, de suas amizades em dias de chumbo, de solidariedade em tempos de tortura, e que reclamam as suas verdades no mundo contemporâneo, quando a ameaça fascista volta suas armas em direção às minorias, especialmente em direção às mulheres. Aberê é também um aviso: nunca desistiremos, apesar destes que estão aí.
Características do eBook
- Autor(a): Kiki Givigi
- Categoria: Literatura e Ficção
Amostra Grátis do Livro
Faça a leitura online do livro Aberê, escrito por Kiki Givigi. Esse é um trecho gratuito disponibilizado pela Amazon, e não infringe os direitos do autor nem da editora.



