A Sombra e o Medo: Mistério e Suspense

Por Miranda May

Sobre o livro

A Antologia “A Sombra e o Medo” é composta por 22 contos de extremo suspense, mistério e terror.

Criados por 20 grandes autores brasileiros que nos sequestram a atenção (por horas) com sua escrita precisa e cativante, a antologia conta, também, com a participação especial do grande escritor e editor Gianpaolo Celli que, em parceria com o escritor Sérgio Pereira Couto, é dono de uma vasta produção editorial.

Degustem abaixo a introdução do conto “A Luz e a Escuridão” com o qual eu tive a honra de participar junto a estes autores incríveis. Miranda May “Quando o homem chegou à cidade, trouxe consigo a noite. Havia algo em seu rosto. Algo inicialmente incompreensível.

Era uma mistura de dor extrema e de extrema escuridão. Quando a dor tem a ver com a escuridão? — perguntei-me, ao analisar meus sentimentos, quando prospectei sua expressão.

E a resposta veio de minhas próprias sombras: quando a dor é tão grande que, por fim, o ser torna-se incapaz de sentir qualquer coisa. É a escuridão da alma. Nela existem sombras que não foram projetadas pela luz.

Já me disseram que não pode haver sombra sem que haja luz para projetá-la; mas, essa sombra específica, a sombra causada pelo extremo sofrimento, não sabe mais que luz a criou. Só o que vê são as trevas e a destruição, a descrença e a aniquilação.

De minha janela olhei o céu escurecer e vi a tempestade — fria — trazendo a umidade e as noites intermináveis. Eu estava na varanda — como de costume ao final do dia; por isso presenciei tudo, desde o começo. O sino anunciava a noite enquanto eu observava o estranho.

Nunca percebera, com tanta clareza, a dor refletida em um humano. Ele arquejava. Seu corpo era um bambu exposto ao vendaval. Sua pele era cinza como cinza parecia ser sua vida. Ele sofria. E a dor espraiava-se ao seu redor contaminando qualquer um que o observasse.

Sua alma, como o sino, anunciava a noite. O posto de saúde, a igreja e o bar em frente à minha casa, assim como todas as portas e janelas estavam fechadas esperando o temporal. As famílias se recolhiam para o jantar enquanto um vento frio e úmido varria as calçadas desertas.

Os habitantes da pequena vila não imaginavam, mesmo em suas mais tenebrosas fantasias, que um fantasma do passado retornava para assombrá-los. Quando ele chegou, eu pressenti que uma noite escura caia sobre nosso vilarejo e, sua sombra — ou sua falta de luz —, marcaria para sempre nosso destino.

A razão não temia o que poderia nos acontecer, mas o coração sempre. E, quando as sombras da tempestade inundaram o entardecer, elevei à Deus uma prece: “perdoai nossos pecados, tende piedade de nós”. Olhei aquela forma humana se dissolver nas trevas noturnas como se delas fizesse parte.

Mas, com raiva, fechei a janela.”

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