A Servidão do Cartão

Por Sérgio Ciríaco de Freitas
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A Servidão do Cartão Júlia sempre acreditou que a vida adulta começava com pequenas conquistas: um emprego, um documento novo, talvez o primeiro aluguel dividido com amigos. Não imaginava que seu primeiro rito de passagem viria dentro de um envelope branco e imponente, com uma tarja azul-marinho que dizia: “Você foi escolhida.” Escolhida. A palavra provocou nela uma sensação doce, quase infantil. Trabalhava como atendente em uma loja de roupas no centro de Recife, ganhando pouco mais de um salário mínimo. Nunca imaginou que um banco olharia para ela com tanto entusiasmo. Quando abriu o envelope, seu coração bateu diferente. Cartão de Crédito — Limite Inicial: R$ 1.500. Naquela noite, mostrou a novidade para a mãe, Dona Zuleide, que franziu o cenho como quem vê um animal perigoso à espreita. 1. O Cartão Que Brilhava Mais Que a Realidade A loja onde trabalhava era cheia de tentações. Bolsas, perfumes, vestidos das novas coleções. Antes do cartão, eram apenas sonhos distantes. Depois dele, tornaram-se possíveis — e não demorou muito até que ela cedesse à sensação eletrizante de passar o cartão pela primeira vez. 2. A Fatura Não Perdoa O valor somado era maior do que o salário. Não muito maior, mas o suficiente para fazê-la suar frio. Na parte inferior, um retângulo amarelo quase brilhante destacava uma opção sedutora: Pagamento mínimo: R$ 89,90. Era como uma promessa de alívio. Uma saída fácil. Pagou o mínimo. Na semana seguinte, comemorou o aniversário de uma amiga numa churrascaria. O cartão estava na bolsa. E ela pensou: É só essa vez. Só que “essa vez” sempre encontra outra vez para acompanhar. No mês seguinte, a fatura praticamente dobrou. O pagamento mínimo triplicou. Os juros, silenciosos como uma cobra rastejando, começaram a envolver sua vida. 3. O Gerente, O Sorriso e a Arapuca De tanto atraso, o banco finalmente ligou. — Senhora Júlia, precisamos conversar — disse o gerente, num tom suave demais para ser sincero. Ela foi até lá em seu intervalo de almoço. Ele não sorria mais como antes. As mãos cruzadas sobre a mesa denunciavam autoridade. O ar condicionado gelado parecia deixá-la ainda menor do que já era. — Sua dívida está crescendo rápido — explicou. — Mas podemos renegociar. É só assinar aqui. 4. O Peso Que Não Some Três meses depois, Júlia já não conseguia dormir. As mensagens de cobrança chegavam como marretadas no celular. A vergonha corroía cada pensamento. Não contava mais para a mãe. Não contava para as amigas. Parecia que a dívida crescia dentro dela, ocupando o espaço que antes era ocupado pelos sonhos. 5. A Queda e o Recomeço Numa noite especialmente dura, quando percebeu que teria de escolher entre pagar a renegociação ou comprar comida, ela desabou. A mãe encontrou a filha chorando na mesa da cozinha, cercada de boletos, canetas e desesperança. — Júlia… por que não disse nada? Ela chorou no colo da mãe como quando era menina. 6. O Corte Que Liberta Com orientação de uma assistente social da igreja, Júlia começou a entender juros compostos, renegociação justa, direitos do consumidor e tudo aquilo que nunca lhe ensinaram na escola. Um dia, pegou o cartão, colocou sobre a mesa e respirou fundo. Depois, com uma simples tesoura, cortou-o ao meio. 7. O Legado Anos depois, ao ver sua sobrinha receber o primeiro cartão pelo correio, os olhos brilhando da mesma forma que os dela brilharam um dia, Júlia sorriu — mas um sorriso diferente.

Características do eBook

  • Autor(a): Sérgio Ciríaco de Freitas
  • Categoria: Autoajuda

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