A Sede: O Evangelho do Encourado

Por JORGE PORTUGAL

Sobre o livro

Prefácio Fragmento de um diário, encontrado nos escombros da capela de Poço Fundo, 1912. O Sertão tem memória. Mais antiga que a cruz que o padre ergueu, mais antiga que a bala da Volante. A terra seca se lembra do primeiro sangue que bebeu, e ela sempre pede mais. Não é o Diabo que anda por aqui.

O Diabo é vaidoso, ele quer sua alma em troca de riqueza. O que anda na caatinga é mais simples. Ele é faminto. Não o chame pelo nome. Não o convide a entrar. Nós sabemos quando ele se aproxima. Não é o vento que uiva nos facheiros; o vento tem direção. O que ouvimos é um silêncio que se move.

Os bichos sabem primeiro. O cachorro chora e se esconde debaixo da rede, o rabo entre as pernas. A galinha para de botar e se encolhe no puleiro, recusando o milho. E então, no sol a pino, os urubus.

Eles não circulam a carniça; eles pousam nos telhados, imóveis, como sentinelas da morte, esperando o banquete que ele vai deixar para trás. Ele parece um homem. Um homem alto, vestido no couro escuro de vaqueiro, como se estivesse de luto pelo próprio sol.

Ele é bom de prosa, os olhos são feito a noite sem lua. Ele vai pedir água. Vai pedir pouso. Vai pedir um prato de comida. Negue. Reze para que seu filho esteja batizado. Reze para que sua filha não tenha saído para namorar no escuro. A cruz no pescoço não o para. A bala de rifle não o arranha.

A água benta é poeira para ele. Sua única defesa é o batismo e a soleira da sua porta. Pois o Encourado não pode tomar o que é de Deus. Mas ele devora, sem piedade, tudo o que é pagão. E nesta terra esquecida, meu Deus… como há pagãos.

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